Onde houver pessoas, aí está a praia do Eneagrama. E onde as pessoas experimentam a privação de sua dignidade fundamental, aí o Eneagrama se revela na sua beleza mais profunda como poderoso caminho de transformação pessoal e grupal. Autoestima e novas relações, redescoberta de sentido para a vida e releitura da história pessoal, dignidade da vida humana, sonho, ideais, projetos de vida, aceitação, compaixão por si e pelos outros... são marcas que ficam nas pessoas e nos grupos por onde o Eneagrama passa. Sou testemunha disso e testemunho com gratidão e encantamento, o que algumas dessas experiências me permitiram contemplar.

1. Adolescentes cumprindo Medida Socioeducativa de Internação

Tudo começou com uma palestra sobre autoestima, numa das unidades onde, no Ceará, estão internados adolescentes que cometeram atos infracionais. Centro Educacional Cardeal Aloísio Lorscheider - CECAL, com internos entre18 e 21 anos. O convite foi de Júlio Cesar Maia, Diretor Pedagógico comprometido com o resgate da dignidade daqueles rapazes. Nasceu daí um grupo de jovens, com reuniões semanais, para trabalhar valores, autoestima, relacionamento, projeto de vida. A participação era voluntária, mas em breve nasceu um segundo grupo. Os educadores (professores do Programa de Educação de Jovens e Adultos, psicólogas e assistentes sociais, monitores - encarregados da disciplina e segurança) diziam nos primeiros tempos: "esse pessoal não quer saber de nada. Não perca seu tempo com isso". Mas, um ano depois, alguns desses mesmos educadores pediram um trabalho também com eles. Propus o Curso de Eneagrama, que alguns já vinham pedindo, mas... com uma condição: sessenta vagas, metade para os internos e metade para os educadores. Houve reação: "a gente não pode se misturar com os internos, são níveis diferentes" - diziam os educadores. Mas a estratégia já estava combinada com a Direção: era pegar ou largar. E eles foram. Na primeira das quatro tardes do Curso, os internos ficaram na frente e lá no fundão da sala, os educadores, resistentes. No segundo dia, já estava tudo misturado. A terceira tarde coincidiu com o dia da visita de familiares e amigos dos internos. Para alguns, a visita acontecia apenas uma vez por mês. E vários que estavam participando do curso, foram chamados para atender as visitas, exatamente no mesmo horário do Curso. "Eu digo, porque vi - falava o Diretor, pois se me contassem eu não acreditaria: os adolescentes foram lá, despediram as visitas... e foram participar do curso". A participação era voluntária.

Na avaliação da primeira etapa, um educador falou: "para mim, além do autoconhecimento que o curso me trouxe, o que eu achei mais importante foi a quebra de barreiras entre educadores e internos. Pela primeira vez em dezessete anos desta instituição, aconteceu um trabalho com participação conjunta de educadores e internos". Era esse um dos objetivos sonhados. E foi atingido, de forma palpável. Na semana seguinte, na reunião do grupo de jovens, um dos internos falou: "o que eu dei mais valor... é que eu fiz um curso igual ao meu monitor, sentado ao lado dele... ele que nunca antes tinha me chamado pelo meu nome... ele sempre dizia: ei, marginal, vem aqui". Talvez a gente nunca consiga entender o que isso representa para a autoestima daquele rapaz.

A identificação do Tipo de Personalidade no Eneagrama, foi fácil, natural e espontânea... e despertou uma compreensão imediata, para cada interno, da sua história no mundo do crime, das motivações e mecanismos inconscientes que o arrastaram para lá. Abriram-se também perspectivas claras de novos caminhos de vida mais digna. "Eu descobri que tem coisa boa dentro de mim - dizia um deles - e eu sempre achei que só tinha coisa ruim".

Um mês depois aconteceu a segunda etapa. Vivência dos caminhos de crescimento que o Eneagrama propõe. Uma experiência linda de interação e crescimento individual e institucional. Guardo na menina dos meus olhos a cena daquele adolescente Tipo Quatro,  analfabeto, explicando coisas do Eneagrama para a Psicóloga, no meio da vivência.

Pela primeira vez na história da Instituição, uma atividade reuniu Internos e Educadores. Isso transformou as relações e o ambiente.

Pouco tempo depois disso, quando os resultados desse processo se manifestavam de forma cada vez mais visível... o Governo do Estado substituiu a Direção do Centro. Na semana seguinte, não nos foi permitido entrar mais naquela unidade.


 

2. Aldeia Indígena Jenipapo Kanindé

Lagoa da Encantada, um encanto de lugar onde mora um povo encantador, no município de Aquiraz, a cerca de 50 Km de Fortaleza. Tivemos contato com essa Etnia, quando estava em litígio com uma empresa, situada na área demarcada da reserva indígena. Entramos nas fileiras solidárias aos índios. Acompanhamos os jovens da Aldeia e os laços de proximidade e confiança se estreitaram. Algum tempo depois, passei uma semana na Aldeia e fizemos o primeiro contato com o Eneagrama, através de uma linguagem muito simbólica, num ambiente de muito à vontade e abertura, onde crianças, jovens e adultos se identificaram facilmente e se divertiram com as descobertas. Um dos objetivos maiores era trabalhar as lideranças, mas os efeitos foram muito mais além: criou-se um clima de terapia familiar entre os participantes, com um nível lindo de abertura, aceitação simples e ajuda mútua.

No final dessa primeira etapa, a Cacique Pequena, primeira mulher cacique na América Latina, alma grande de sabedoria, analfabeta de pai e mãe e parteira, falou assim: "eu vou estudar melhor o Eneograma (sic). Não sei se sou o oito, ou o dois, ou o cinco. Quando eu era jovem, eu era esse oito: eu era muito agressiva e achava que resolvia tudo no braço. Mas depois que me tornei uma cacique, eu vi que isso não levava a nada e eu tinha mais era que cuidar do meu povo. Hoje eu vivo para ajudar o meu povo e até esqueço de mim. Então hoje eu sou mais esse dois. Mas também tem o cinco, porque às vezes, quando acontece alguma coisa que eu me chateio, eu me isolo e fico pensando sozinha’. É bom ressaltar que na primeira etapa desse trabalho de Eneagrama na Aldeia, não falamos de flechas... apenas proporcionamos o contato com os Tipos de Personalidade.

Um ano depois, durante um aprofundamento, a Cacique, com encantamento crescente, falou assim: ‘o que eu acho mais importante no Eneograma é que estas coisas ninguém ensina para a gente nem a gente estuda nos livros: é um segredo que está dentro da gente’.

A mistura de idades, normal nos eventos da Aldeia, proporcionou um ambiente familiar e gerou condições para momentos ricos de terapia comunitária. As lideranças cresceram. O diálogo e a o relacionamento experimentaram mudanças significativas. O Eneagrama passou a ser uma referência na vida da comunidade, como algo agora descoberto, mas que já estava lá, fazendo parte da vida das pessoas. 

Algum tempo depois, no Quarto Congresso Brasileiro de Eneagrama (IEA-Brasil), em Fortaleza, a Aldeia Indígena Jenipapo-Kanindé esteve presente e fez, num momento emocionante, uma linda homenagem a Claudio Naranjo, que havia feito a palestra de Abertura. Nesse mesmo Congresso, a empresa antes em litígio com os índios... e que depois também teve contato com o Eneagrama,  estava presente como patrocinadora do evento. Mais tarde, a mesma empresa retirou todas as Ações que movia na Justiça contra a Aldeia Indígena.

Um dia, visitando a Aldeia com um amigo professor de Eneagrama, encontrei Raquel, uma menina que havia participado do curso quando tinha oito anos de idade. Pedi para ela falar ao meu amigo sobre Eneagrama... e ela disse: ‘eu sou Tipo Um, mas agora eu já aprendi a relaxar’! lembro que essa mesma menina, quando realizamos a Primeira Etapa de Eneagrama na Aldeia, estava sentada atrás da Cacique e, quando eu explicava a estrutura da Personalidade Tipo Oito do Eneagrama, a menina, sorrindo escondido, apontava para a Cacique... que despertou com o sorriso geral do grupo e, olhando para a menina, disse: “é isso mesmo minha filha... eu sou desse jeito mesmo”!

Ali, no ambiente encantado da Lagoa da Encantada, o Eneagrama parece ter mais encanto ainda... como se fosse apenas um reencontro daquele povo com algo que andava e sempre andou dentro deles.


3. Eneagrama atrás das grades

Instituto Presídio Professor Olavo Oliveira. Estado do Ceará. Duzentos detentos, em turmas de cinquenta. Uma diversidade humana onde as diferenças de escolaridade e de condição social se diluíam na realidade comum agora vivida e na esperança de vida nova que o sofrimento tempera. Interesse e abertura, espontaneidade, sinceridade... e muita vontade de crescer e muita alegria na descoberta de novos horizontes que o Eneagrama ia abrindo na vida daqueles seres humanos. A facilidade com que identificavam seu Tipo de Personalidade foi impressionante: era só começar a explicar as características do Tipo, que logo alguém se identificava e, a partir daí, se tornava o verdadeiro professor de Eneagrama, falando da sua vida, de como os mecanismos inconscientes se manifestavam e, com toda a naturalidade e profundidade, fazia a releitura de sua história pessoal à luz do padrão de personalidade agora descoberto, entendendo claramente a influência que isso havia tido nas suas aventuras pelo submundo do crime, até chegar onde agora estava.

Lembro daquele homem de meia idade, que se identificou como Tipo Dois. Estava preso por roubo. Perguntei, como provocação: ‘como é que um Tipo Dois fica roubando as pessoas?’ E ele respondeu no mesmo tom: ‘mas eu não roubo qualquer pessoa. Eu só roubo gente estribada. Por exemplo, quando é o dia das velhinhas receberem a aposentadoria... eu fico lá olhando a fila do banco. Aí, dá aquela tentação de roubar, porque é bem fácil... mas na mesma hora eu vou embora para não cair na tentação de roubar velhinha. Uma vez fiquei perto da saída de uma empresa, no dia em que os funcionários recebiam o salário. Vi um cara saindo e achei que ele trazia muita grana. Assaltei ele... e o cara só tinha R$ 900,00. Aí... dei R$ 500,00 para ele e levei o resto’.

A transparência de quem fala sem ter nada a perder ou imagem a defender, deixou claras motivações profundas, às vezes inconfessas nos alunos que encontramos nos cursos habituais de Eneagrama... e ajudou a entender melhor e mais profundamente as sombras que habitam o mistério que o ser humano é. Ninguém tem nada a defender, nesse ambiente. E por isso, a abertura sincera das falas de cada um ao se descobrir, é um livro aberto da alma humana em toda a sua dramaticidade e mistério, no jogo de luz e sombra que a habita.

Ouvi coisas que em lugar nenhum seria possível escutar, acerca dos porões sombrios onde a Personalidade pode levar o ser humano. Mas também fiquei emocionado com o encantamento e descobertas do sentido novo que o Eneagrama abria na vida daqueles homens. Várias pessoas apareceram em turmas abertas de Eneagrama e se apresentaram como familiares de presidiários que haviam conhecido o Eneagrama no presídio: “Eu vim porque meu marido me indicou”.

Vários membros da Diretoria do Presídio, deram testemunho acerca das mudanças percebidas após o curso de Eneagrama: crescimento da autoestima e mudança de postura de alguns detentos, além de melhores relações interpessoais.

No final do curso, propus a criação de um grupo de Meditação no Presídio. O entusiasmo foi imediato. Algum tempo depois voltei no presídio para fazer uma palestra e vários cobraram o início do Grupo de Meditação. Quando falei com a Dra. Ruth, Diretora do Presídio, que implementou todo esse processo de humanização, ela me disse: ‘coloque meu nome na lista. Eu quero participar desse grupo de Meditação’. Vibrei... imaginando o impacto transformador e o testemunho lindo que esse gesto teria: um grupo de Meditação dentro de um presídio, onde a Diretora medita junto com os detentos! Pouco tempo depois, uma fuga de detentos acabou derrubando a Diretora. E o sonho parou por aí...

Mas, algum tempo depois a ex-Diretora desse Presídio, começa um projeto chamado Fábrica Escola, para abrigar  pessoas que cumprem Liberdade Condicional ou detentos que hajam demonstrado sinais de transformação em seu comportamento. Uma Escola de ressocialização e humanização, onde as pessoas têm oportunidade de trabalhar, passando o dia lá e indo dormir em suas casas. E quando, algum tempo atrás, eu vou lá visitar esse projeto e realizar um novo trabalho de Eneagrama com essa nova turma, encontro dois ex-detentos que tinham participado do Curso de Eneagrama no Presídio Professor Olavo Oliveira... agora trabalhando como colaboradores neste novo projeto!

 

4. Dependentes Químicos experimentam o Eneagrama e fazem uma grande viagem

Clínica Árvore da Vida, em Paripueira, Alagoas, a cerca de 30 Km de Maceió. Sessenta pessoas, na maioria jovens, em processo de recuperação. Trata-se de uma Clínica de internação involuntária. Uma mistura de realidades sociais. Um ponto de encontro: vidas que chegaram no fundo do poço. Em Abril de 2012, aconteceu o primeiro contato: uma palestra de apresentação do Eneagrama. Uma hora e meia para explicar o que é esta tradição e uma breve descrição dos nove tipos de personalidade. Empolgação... e fácil identificação dos participantes. Propus um painel e, das nove pessoas que participaram, apenas uma estava mal identificada. Depoimentos profundos e encantadores. Isso serviu de entusiasmo para ir mais além. Os diretores da Clínica, Urânio Ferros e Cristina, conheceram entretanto o Eneagrama e intuíram a força transformadora que ele poderia significar para os internos. Na primeira semana de Agosto, quatro manhãs, como primeira etapa do Curso de Eneagrama. Bastava começar a explicar um Tipo de Personalidade e o resto ficava por conta dos participantes: eles davam exemplos, apontavam características centrais e explicavam as motivações inconscientes... como se fossem professores experientes de Eneagrama. No início de Setembro, dois dias intensivos para a segunda etapa, com os caminhos de crescimento, numa dinâmica estritamente vivencial.

Se a primeira etapa do Curso já tinha sido uma grande viagem,  este segundo módulo foi uma transformação profunda. Interesse, perspicácia e profundidade na identificação das motivações e das causas profundas do comportamento. Tomada de consciência em relação aos mecanismos inconscientes que levaram ao mundo das drogas. Descoberta clara e consciente de novos caminhos. Ampliação das descobertas e aplicação às relações familiares. Consciência da  sombra e descoberta de que tem luz atrás da sombra, bem próxima. Quem chegou no fundo do poço, no mais escuro da sombra, chegou bem perto da luz. O sofrimento despertou a sede da vida e a escuridão dos porões humanos acordou a sensibilidade para cheirar o rumo da luz. Ouvi partilhas profundas, carregadas de intuições e descobertas que nunca ouvira antes, nem nos livros e nem da boca de especialistas em Eneagrama... porque o Eneagrama é o mapa dos segredos que existem na alma humana e, quem mais fundo nela mergulhou, mais claramente dela pode falar.

Adalberto, 21 anos, há três meses na Clínica, tendo passado as três primeiras manhãs fazendo piada com tudo e com todos... baixou a cabeça e silenciou durante o estudo do Tipo Sete. Levantou-se e foi para o painel... e começou dizendo: ‘meu irmão, estou com muita vergonha. Eu pensava que eu era engraçado e que o povo se divertia com as minhas piadas. Mas agora eu vejo que isso é fachada e fuga do meu sofrimento e que o pessoal deve estar cansado das minhas gracinhas. Eu confesso que ainda não sei qual é o caminho... mas já percebi que esse caminho que eu estava seguindo não tem futuro e quero pedir desculpa aos meus companheiros’.

Tipo Nove, Ricardo, bem jovem, partilhou na segunda etapa: ‘sempre me senti desvalorizado pela minha mãe. Ela só dava atenção e elogios para a minha irmã. Cansei de tentar fazer o que ela queria e nunca teve jeito de agradar. Era só cobrança. Chegou num ponto em que resolvi ser ruim... era o único jeito de chamar a atenção da minha mãe. Ela é empresária, pastora evangélica... e eu entrei no mundo das drogas. Hoje eu percebo que a motivação foi essa... e que com isso eu destruí a minha vida’.

O saldo foi claro para os participantes: identificar a motivação que, em cada Tipo de Personalidade, está por trás do movimento que leva às drogas, descobrir que seu problema não era a droga ou o álcool... mas sim um vazio anterior e mais profundo, alicerçado nas raízes da estrutura humana. E perceber que a vida tem jeito e que a felicidade é possível.

No final, quando cada participante deu seu depoimento acerca do curso, um deles falou da preocupação com a mãe: ‘o curso me ajudou muito. Eu mudei. Eu agora tenho um caminho novo na minha frente e me compreendo melhor. Mas o problema agora vai ser com a minha mãe. Ela também precisava conhecer estas coisas para entender’.

E, na mesma hora, outro participante deu a solução: ‘pois cara, quando você sair daqui, vá trabalhar e pague um curso de Eneagrama para a sua mãe’!

 

5. Mais uma viagem fantástica numa Clínica de Recuperação de Dependentes Químicos Maringá, no Paraná.

MAREV significa Associação Maringá Recuperando Vidas. Quarenta e oitos pessoas em processo de recuperação e uma equipe bem motivada e comprometida. Quatro dias intensos onde ouvi coisas que os livros não falam e que nenhum professor de Eneagrama ensina. Abertura. Interesse. Profundidade. Identificação fácil e clara do Tipo de Personalidade. Uma extraordinária capacidade de reler a vida à luz das descobertas que o Eneagrama ia proporcionando. Uma libertação ao entender as razões profundas que estavam por trás dos atalhos que os haviam levado ao submundo das drogas.

Falei, logo no início... que a droga não era problema... era solução! O buraco está mais embaixo! A droga apareceu na vida deles como tentativa de solução para preencher algum vazio. E, à medida que cada um se identificava no Eneagrama, entendia fácil qual era a carência existencial profunda que estava por trás de todo o seu caminho... e abria um sorriso libertador, ao perceber aí um caminho, não apenas para se libertar das drogas, mas sobretudo para recuperar sua dignidade como gente e sua capacidade de ser feliz!

Algumas vezes, nos intervalos do Curso, reuni com a equipe: psicólogos, assistente social, voluntários e colaboradores. Ouvi de um psicólogo, que passou pela casa em processo de recuperação e depois fez faculdade e agora trabalha lá: “eu sempre critiquei a pedagogia das casas de recuperação, porque usam os mesmos métodos para todas as pessoas... e eu sempre achei que as pessoas são diferentes e cada pessoa precisa ser tratada de modo específico. Acredito na pedagogia dos Doze Passos... mas a sua aplicação tem que ser personalizada. Mas eu não sabia como fazer isso. Fico feliz agora por ver que o Eneagrama traz uma chave de compreensão das diferenças de cada pessoa e um jeito próprio de motivar cada uma”.

Talvez essa tenha sido uma das grandes descobertas para a equipe, ao longo do Curso de Eneagrama: perceber que cada Tipo tem uma motivação própria para entrar no mundo das drogas, descobrir que essa motivação tem a ver com mecanismos inconscientes muito específicos em cada pessoa... e que também precisa ser diferente a forma como motivar cada um para sair desse submundo e que o caminho que cada um percorre na recuperação também é diferente.

Lembro do Tipo Um que entendeu ter buscado nas drogas um escape para aliviar a pressão interna de responsabilidades exageradas... e que depois se culpava mais ainda por estar fazendo ‘algo errado’. Lembro do Tipo Dois que entrou nessa para ser aceito pela turma e para agradar aos amigos. Lembro do Tipo Quatro que percebeu que desse jeito conseguia chamar a atenção da família para ter compaixão por ele. Ouvi o Tipo Seis dizer que se sentia forte e autoconfiante para enfrentar a vida quando usava drogas. O Sete entrou nessa para experimentar e se enturmar... mas depois tomou consciência e confessou que no fundo estava querendo mesmo era fugir de uma angústia insuportável que o acompanhava. Lembro do Tipo Oito que entrou para provar que era forte e que poderia sair quando quisesse... mas depois demorou para aceitar que havia sido dominado pelas drogas e que precisava de ajuda. E ouvi o Tipo nove confessar que entrou nessa viagem para esquecer dos conflitos e confusões familiares e pessoais.

Ouvi um menino de doze anos, recém chegado na Casa, explicar que havia perdido o pai há um ano e depois disso, sentindo-se não amado pela mãe e pela irmã, foi para a rua, onde encontrou acolhida dos amigos que usavam droga... e acabou usando para agradar e ser aceito por eles. E agora estava com vontade de ir embora da Casa... ‘porque queria ajudar os outros nas tarefas da laborterapia e eles não aceitavam’... e é claro que assim um Tipo Dois se sente rejeitado!

Várias vezes me belisquei para ver se estava acordado, ao ouvir depoimentos francos e profundos de vários deles. Às vezes tinha a sensação de que era um teatro ensaiado ou um discurso decorado de algum livro de Eneagrama. Mas não era... era muito mais profundo do que isso! Saí... para chorar no caminho de terra ao lado da fazenda, depois de ouvir a partilha vivencial de um Tipo Quatro. A memória que ele tinha da infância era de morar nas ruas de S. Paulo com um mendigo que ele não sabe quem era. Aos oito anos foi recolhido pela FEBEM e só aí foi registrado e ganhou um nome. Foi adotado por uma família e devolvido algum tempo depois. E novamente adotado por outra família, fugiu de casa por não suportar um pai alcoólatra que o maltratava. Morou num prostíbulo e trabalhou de office boy. Mas era chique... gostava de música clássica e se juntava com os amigos do mesmo chão para falar de poesia. “Nós não tínhamos nada... mas a gente falava das coisas que o povo da elite fala”! E quando eu elogiei sua capacidade, ao final da Partilha, falei do Tipo Cinco do Eneagrama e expliquei esse padrão de comportamento. Demorei cerca de meia hora. Foi o tempo em que esse rapaz, Tipo Quatro, desenhou, com traços de caricaturista atento e refinado, um perfeito Tipo Cinco! Um artista! Valorizei sua arte e incentivei! No dia seguinte, quando cheguei de manhã, ele me trouxe uma folha com as caricaturas de todos os Tipos do Eneagrama, numa expressão perfeita dos traços de cada Tipo de Personalidade!

No segundo dia falei para eles de Meditação. Propus uma experiência de cinco minutos, lá no meio da mata, depois do relaxamento. Alguns falaram no final... e disseram coisas que só quem medita há muito tempo é capaz de deixar subir do coração! No dia seguinte, quando cheguei, perguntei se alguém tinha repetido a experiência da Meditação. Meia dúzia levantou o braço e no intervalo um rapaz Tipo Seis Contra Fóbico veio me falar: “eu meditei duas vezes ontem... uma antes de dormir... e a outra, quando eu tive uma discussão com um colega... quase eu saí para a briga, mas aí lembrei, saí... e fui meditar”...

Meditamos todos os dias, depois. Várias vezes. E eles pegaram gosto. A equipe assumiu a Meditação como caminho novo e resolveu integrá-la no ritmo diário da casa. O Eneagrama também. Três pessoas da Equipe se interessaram em fazer formação em Eneagrama para mais tarde poderem aplicar e manter essa tradição no processo da Casa de Recuperação, acompanhando os internos com a ajuda desta tradição.

Emocionante. Várias vezes tive e partilhei a sensação de ver pessoas no fundo do poço, vendo uma corda pairar acima de suas mãos... e se agarrarem a ela com unhas e dentes, por sentirem nela segurança e clareza!  Talvez eles, por terem chegado lá no fundo do poço, onde o humano grita com todas as forças e o sofrimento tempera a alma e a leva a buscar a vida com mais intensidade... talvez eles, por tudo isso e por muito mais mistérios que a razão humana não dá conta de explicar... se apaixonem assim pela sabedoria do Eneagrama e mele enxerguem trilhas de vida nova!

“Religião é para aqueles que têm medo de ir para o inferno. Espiritualidade é para aqueles que já estiveram lá”. Li essa frase, um dia, no para-choque de um caminhão. Esses rapazes me fizeram entender a sabedoria dessa frase. E talvez por isso eles sentiram no Eneagrama, não apenas um mapa para se entenderem e saberem onde estão e por aonde chegaram até ali... mas sobretudo um itinerário espiritual de vida nova mais plena e abundante!

E trago ainda na memória a alegria de escutar um Tipo Sete, no final do Curso, falar de sua gratidão ao Eneagrama: “Eu sempre achei que eu era deste jeito porque era um cara engraçado e que todo mundo achava legal eu ser assim. Já passei por três internações... Se não fosse o Eneagrama eu nunca iria descobrir que este meu jeito de ser é uma fachada para eu fugir do sofrimento”!

CONCLUINDO... E LAVANDO A ALMA

Aprendo e ensino Eneagrama há vinte anos. Sou imensamente e eternamente grato a esta tradição pelo quanto ela me ajudou a ser uma pessoa melhor. Sei que não sou o que deveria ser... mas tenho certeza que sou melhor do que era antes... melhor para mim mesmo, melhor para os outros, melhor para o Universo. Já vivi emoções muito fortes e chorei ao comtemplar maravilhas de transformação que o Eneagrama proporcionou na vida de muitas pessoas, grupos, famílias, equipes, comunidades e instituições. Ouvi Histórias (assim mesmo... e com maiúscula!) de milhares de pessoas por entre as mais de vinte mil que passaram por nossos Cursos ao longo destes anos, dividindo as suas vidas entre o “antes” e o “depois” do Eneagrama. Já andei por quase todos os Estados do Brasil e em outros países e encontrei, sentados nas cadeiras de nossos Cursos ou andando pelo símbolo do Eneagrama, o professor universitário e o analfabeto, o detento e o juiz, o jovem infrator e o educador social, o psicólogo e a dona de casa, o índio, o jovem, o idoso e a criança, o médico, o professor e o empresário, o deputado e o prefeito, o patrão e o funcionário - desde o alto executivo ao peão de obra, o militante dos movimentos sociais, o padre, o bispo, o leigo e a freira, o hindu, o budista, o cristão e o islâmico, o espírita e o ateu... e com todos eu aprendi a beleza do mistério do ser humano ao descobrir, a partir da  vida, o saber de experiência feito e o segredo de uma vida mais plena... mas eu confesso que a minha gratidão maior ao Eneagrama e as maiores emoções que através dele vivi, devo a estas experiências sociais que neste texto relatei. E, se sempre tive a convicção que a maior parte e o melhor daquilo que hoje eu sei sobre Eneagrama, eu devo às pessoas que escutei durante estes anos... sem dúvida que o aprendizado que estas experiências sociais me proporcionaram, tem um lugar privilegiado no meu coração e desperta um brilho especial nos meus olhos!

E chego no final deste relato com a sensação clara que as palavras que digitei... estão muito longe de traduzir a densidade das experiências que referi.

Estas experiências de aplicação social do Eneagrama me ensinaram...

Uma crença no ser humano e na sua capacidade de autodescoberta e transformação. Crença no Eneagrama como poderoso instrumento de leitura pessoal e mapa simples, preciso e acessível.

Crença que a transformação é possível, de dentro para fora, a partir de um olhar de compaixão sobre si e sobre os outros... e de um olhar de esperança sobre a vida!

Acreditar na pessoa.

Acreditar no Amor.

O Amor transforma.

O Eneagrama é apenas um instrumento... e que instrumento!

 

 

Domingos Cunha

Instituto Eneagrama Shalom

 

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