OS HUMANOS QUE ERAM DEUSES

Num tempo não muito distante, havia um reino, muito, muito perto, onde os Humanos eram Deuses. DIVERTIDAMENTE e AMOROSOCORAÇÃO, moravam num castelo sem portas e sem muralhas, apenas com janelas, sem vidraça, que eram nove, por onde o Olhar se espalhava pelos campos e montanhas e o Coração espraiava sua energia, como ondas de espuma pela areia ou aquela luz de ouro ao entardecer, por sobre os vales e chapadas.

Eram três, nesse Reino, os pontos Cardeais. Três janelas eram voltadas para DEUS, de onde tinham vindo os Humanos que eram Deuses. Outras três janelas eram voltadas para dentro dos Humanos que eram Deuses, como espelhos, onde eles viam DEUS. E as outras três eram voltadas para fora, para o mundo dos humanos e das outras criaturas, com quem os Humanos que eram Deuses se relacionavam e onde viam DEUS também.

Das janelas voltadas para DEUS, a primeira era o AMOR e tudo o que por ela se via era feito de Amor e tinha Amor e era Amor a própria janela desse Olhar e tinha valor por ser assim, de tanto Amor, pois por ela passava o Amor que Deus é e é todo. E pela janela desse Olhar, se estendia, suave, sereno e manso, um calor de luz dourada, como ao Pôr do Sol, uma energia de fazer o que é certo no momento certo e dizer o que é bom ser dito no momento oportuno. Chamava-se Diligência essa energia amorosa que do Amorosocoração fluía. Ação Certa.

A luz de ouro que por essa janela passava, refletia numa outra, que era como um espelho, voltada para os Humanos que eram Deuses. E esse raio de luz divina, no Humano refletida, desenhava a FÉ, como silhueta de uma criança sentindo a mão do Pai segurando na sua, por saborear presente em si o Amor de Deus. E pelas paisagens interiores dessa janela, estendia-se, em trilhas, a Intuição, o agir que vinha do coração e que dava pelo nome de Coragem. Era uma energia de autoconfiança, de acreditar que é capaz e pode agir, deixando o coração falar e seguir intuindo trilhas de vida por entre as florestas interiores. A luz que dessa janela saía, chegava ao terceiro ponto cardeal, do lado que dava para o mundo de tudo e de todas as criaturas. E a janela que era aí iluminada pela faísca que vinha da janela do Amor e pela janela da Fé era refletida, dava pelo nome de Esperança, pois deixava vislumbrar por trás de tudo o que vive e se move no universo, uma Lei divina, um princípio informativo sagrado, que tudo conduz e gera Harmonia, numa conspiração a favor do bem, que permite compreender que algo bom vai acontecer, independente de tudo e de todos, fazendo convergir para o Amor os passos de todas as criaturas. Por isso se chama Esperança, essa janela. E por ela se deleita e difunde a energia amorosa da Veracidade, que permite a cada ser em si ser o que é. Ser simplesmente, na autenticidade e na transparência daquilo que vem de dentro, sem precisar ser o que acha que os outros esperam que ele seja, porque ele é e o que ele é tem valor, tem amor, paz e plenitude.

Esse triângulo de Luz vibra e flui, num dinamismo gerador de Vida, que de Deus transborda sobre o Humano e por todo o Universo.

Trindade de Anjos, comunicação entre DEUS e o Universo e os Humanos. Intermediários, divinos humanizados e humanos divinos, luz, Amor, Seres de Luz, de Amor, de Paz. Mensageiros ou canais sagrados por onde o Amor emana da fonte e flui, gerando vida por onde está. Amor dinâmico e criativo, vida que gera vida, amorosidade, encantamento, beleza... criada e recriada e recreada, música, som e leveza, cor, movimento, arte e fruição, prazer e brincar, passeio no Jardim do Éden pela brisa da tarde, a luz dourada do sol se pondo... Anjos.

E neste Triângulo de Vida, três classes de anjos: os Serafins que estão bem junto ou próximos de Deus, os Querubins que são guardiães atentos e vigilantes seguros, os Tronos que expressam majestade divina e grandeza.

Tem outra janela, naquele Ponto Cardeal para Deus voltado. É a janela da Verdade, por onde se contempla o sentido e a bondade, porque Deus é Verdadeiro e nele não há mentira ou falsidade, nem mistura ou divisão, porque nele nada é dual, mas tudo é bom e todas as coisas que Ele criou são boas e têm, por isso, em si, Verdade, sentido, bondade. Espraia-se por essa janela, como criança no colo da mãe, a energia confiante, que se entrega em puro abandono, da Inocência. Porque tudo é verdadeiro, tudo é bom e tem sentido. Nada e ninguém está contra, em nada há divisão... e por isso em tudo e em todos se pode confiar. Não há mau cheiro de injustiça ou falsidade, pois tudo exala perfume de Amor e a respiração pode ser inteira, profunda e livre, como sopro divino que tudo perpassa, na gratuidade.

Na outra janela, aquela que como espelho se abre para dentro dos Humanos que eram Deuses, a mesma Verdade se torna Presente, e faz compreender que em tudo ela está presente, e a tudo dá sentido e faz com que tudo ganhe sentido, cada ser como parte do todo onde tudo faz sentido. E faz compreender que não só a Verdade e o sentido e a bondade estão presentes, mas se fazem Transparentes. E a Transparência da luz divina permite encontrar no humano a abundância do Amor sagrado, farto e inesgotável, disponível, pródigo, aberto e generoso, transbordante. E, por ser farto assim o sentido, a verdade, a bondade, o Amor... por ser Onipresente e Transparente, se espalha e se derrama por essa janela a energia gratuita e generosa da Liberalidade, pois não precisa pegar, segurar, reter ou apegar-se, aquilo que é assim tão farto e abundante. Libera a alma o amor que a preenche e deixa transbordar, por ser tão farto e acessível, generoso e presente, sempre inesgotável. E flui esse amor, generosamente, no amor doado, livremente, sem medida ou conta gotas, por ser abundante.

Ao transbordar se doando em abundância, inunda a outra janela, essa Luz. E faz nela contemplar a Providência divina, aquela sagrada Vontade que cuida de tudo e a todos provém, gratuitamente, incondicionalmente. Todas as necessidades de todas as criaturas são fartamente saciadas, de graça, como quem se farta de pão e de leite e de água e de mel, sem nada pagar. Liberdade, santa liberdade de nada precisar fazer para o amor merecer, porque é puro dom, o Amor da Providência divina. E assim se espalha por toda a criação, com ternura e cuidado de coração de mãe, a energia amorosa da Humildade, que a todos faz sentir a condição de ser húmus, a terra fértil capaz de gerar coisa boa, mas que para isso precisa ser cuidada e a esse cuidado pode se abrir, por saber que será provido em sua necessidade de amor.

E assim fica completo o Terceiro Triângulo de Luz... E mais três grupos de Anjos nele brincam: as Dominações que com Amor-Verdade-Bondade tudo controlam, as Potestades que em si tornam presente e deixam transparecer a Vida é o Sentido e a Bondade, as Virtudes como bondade que cuida de tudo e de todos como providência e generosa na gratuidade.

Mas tem ainda uma outra janela voltada para Deus e nela se contempla a luz da Perfeição. Nela não há defeito algum e nada falta ou está fora do lugar. Tudo está bem do jeito que está e cada coisa em si faz parte perfeita da perfeita sinfonia. Nada acontece por acaso e tudo o que acontece, acontece para melhor, porque tudo é perfeito assim, na totalidade una da beleza plena. Escorre deslizando suave por essa janela, como plumas na brisa, a mansa energia da Serenidade, como um sopro profundo e lento e leve, curtindo e espalhando paz como a borboleta de flor em flor, porque doce é sentir que tudo está bem assim como está e o único a ser feito é saborear.

A Perfeita Luz Serena que dessa janela escorre como mel, inunda como um perfume uma outra janela, voltada para dentro dos Humanos que eram Deuses. É como enorme prancheta de divino arquiteto, o que nesta janela se vê. Um Projeto, um divino Plano que explica de tudo a Perfeição. E nesse Projeto, tudo tem o seu lugar e o Humano encontra sua missão, pois compreende que veio ao mundo a serviço e tem o seu papel na obra grande da Perfeição. É seu Trabalho ou Vocação. Um dom único e um jeito único de colocar a serviço esse dom. E quando, no divino Projeto o Humano se encontra e descobre o seu lugar e insubstituível Trabalho, aí encontra a Sabedoria, o Sabor que lhe vem de curtir seu valor. E por sobre essa tela imensa do divino Plano, brilha com suave e delicada leveza, a Sobriedade ou a Temperança, como aquela energia gostosa, do pleno contentamento, do prazer curtido e degustado, que satisfaz e preenche, sacia e faz sentir-se bem no lugar onde está, encontrando prazer sereno em tudo o que faz, como aquele tempero no ponto certo que dá a toda a comida o prazer de ser degustada e a sensação de encontrar aqui e agora, no presente, o prazer suficiente para ser livre de estar aqui, sem nada precisar antecipar ou sugar vorazmente do futuro... porque o que é agora, basta.

Vai voando, levemente, com beleza, desta para a outra janela, essa agora voltada para o mundo, a amorosa luz. E por essa outra janela onde chega, se enxerga a beleza de cada criatura, de tudo e de todos, na natureza em toda a sua extensão, cada ser com seu valor Original, porque ligado à Fonte do Amor, Perfeição. Na Comunhão com a Origem, tudo é e tem valor, que da Origem lhe vem, porque tudo é amado pelo que é, porque criado com Amor e por Amor. E pelas paisagens dessa janela que sobre o mundo se abre, flui e desliza e borbulha criativa, a energia amorosa que satisfaz as almas, num contentamento, pleno e plenificante, capaz até de transbordar se doando de graça, porque é Graça. Chama-se Equanimidade essa energia criadora e criativa e recreativa, que por essa janela, como numa tela, espalha beleza inventando harmonia e salvando o mundo através do belo, porque a alma está saciada, as emoções harmonizadas. Nada falta. O que é basta. O presente sustenta e sacia e sustém.

Outro triângulo de luz se completa e mantém. Outra dança divina de anjos fluindo e espalhando Luz amorosa. Mais três grupos das hierarquias celestiais: os Principados ou Príncipes de Deus Fonte da Perfeição, os Arcanjos que coordenam o Divino Projeto e os Anjos que são do divino a presença mais visível no universo e do humano mais próximos.

Está assim completa a Trindade de Luz que do Uno Trino Primeiro transborda e nele se mantém e sustenta tudo o que vive. Uno Trino, Trindade de Amor Dinâmico, gerador de Vida, Lei do Três, Equilíbrio Divino, Harmonia Sagrada, DEUS, o Humano e o Universo. O Um que é Três e o Três que é Um. Os Três Triângulos que o Uno manifestam e são a mesma realidade no Amor Uno que de tudo é Fundamento. A Trindade que Deus é, o Universo como reflexo e expressão da Trindade, o Ser Humano como imagem e espelho onde DEUS se deixa ver e se faz próximo e o Universo se torna consciente... "Porque o Espírito de Deus dorme na pedra, acorda nas flores, movimenta-se nos animais e torna-se consciente no ser humano". Assim era no tempo não muito distante e no Reino muito, muito perto, em que os Humanos eram Deuses.

 

POR QUE OS HUMANOS ESQUECERAM QUE ERAM DEUSES...

Houve um dia, ao anoitecer, em que o Sopro parou, por um barulho estranho que por um instante fez esquecer o Amor, sentiu medo de ficar só, no escuro. E as janelas se fecharam, na tentativa de segurar o Sopro, pois sem ele a Vida ameaçou ir embora. E o Sopro deixou de fluir e perpassar, livre, o castelo sem muralhas e sem portas e apenas com janelas sem vidraças onde morava DIVERTIDAMENTE e AMOROSOCORAÇÃO. E quando o Esquecimento do Amor gerou o Medo, cada janela não sabia mais quem era... E se fechou, descendo uma vidraça escura, para se proteger. O Sopro ficou curto, espremido e contido... A Luz foi perdendo o brilho... E cada janela, fechada, já não se deixa perpassar e não tem mais nada para deixar transbordar... apenas tentando reter o resto do Sopro que resta.

Desligada do Amor, aquela janela primeira virou esquecimento. A outra virou medo por descobrir-se só. A outra perdeu a identidade por não saber mais quem é. E assim cada janela se foi fechando em si, querendo reter o Amor, na ilusão de ser fonte, querendo ser o todo sendo apenas parte pequena. Surgiram grades nas janelas fechadas na ilusão de serem catedrais tentando reter o Divino. O Sopro estagnou, a Vida parou, o Amor foi sequestrado. Os Triângulos quebraram, a Harmonia definhou. O Fragmento quis ser o Todo e o Parcial quis usurpar o Uno. E surgiram as Personalidades. Desligadas da Fonte, querendo se bastar. Esquecidas de Deus, querendo ser Deuses.

E assim os Humanos esqueceram que eram Deuses e caíram no sono e deixaram de contemplar no Universo, o Divino de quem se separaram...

E um dia, eu creio – será belo esse dia, os Humanos irão despertar do sono... Por causa da Saudade do tempo em que eles eram Deuses... "Porque a Fonte tem sede de quem tem sede".

 Domingos Cunha, CSh

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