Jovem, quem é você?

Numa sociedade de Egos obesos, mentes anoréxicas e corações descartáveis de purpurina... ou você descobre a sua identidade, ou corre o risco de ser uma marionete ou um robozinho.

Se você não construir o seu sonho, alguém vai contratar você para ajudar a construir o sonho dele!  Descubra quem você é... antes que os outros o descubram e antes que o sistema use você como peça da engrenagem!

Um jovem chegou numa cidade estranha e teve que se adaptar para sobreviver. Arrumaram para ele um trabalho de gari, para limpar o lixo que os outros fazem. Depois ele foi estudar para ser médico, porque lhe disseram que dava mais dinheiro. E um dia ele parou e perguntou: O que eu vim fazer aqui? Por que eu vim aqui? Quem me mandou para esta cidade? Para que eu vim? - E aí ele teve um sonho... e sonhou que alguém o mandou a esta cidade para ser feliz, plantando flores e cuidando dos passarinhos.

 A sociedade prefere que você não saiba quem é você, para que você seja o que ela quer de você. Você não é feliz, mas lhe dão dinheiro ou fazem você batalhar duro para ter dinheiro e lhe dão poder e status, e lhe dão férias e viagens, e você volta a fazer o que os outros querem... e, mais cedo ou às vezes tarde demais, descobre que não é feliz... apenas existe e sobrevive. Ou você descobre cedo o que veio fazer aqui... ou passa a vida fazendo o que os outros querem, para sobreviver.

O Google tem quase todas as respostas, os shoppings centers vendem quase tudo... mas a felicidade é responsabilidade sua e não dá para terceirizar. Ninguém evolui ninguém, nem por amor. Não há evolução sem autoconhecimento.

Vivemos uma cultura líquida, gelatinosa... onde o indivíduo é superconectado em rede e a autonomia é exacerbada ao último grau do individualismo e da indiferença, numa sociedade de zumbis, onde o momento imediato é tudo e onde a juventude é banda numa propaganda de refrigerante.

1.     Jovens e Autoconhecimento

Um incêndio tomou conta de uma casa. Havia um jovem dormindo lá dentro. Dormia profundamente. Na tentativa de salvar aquele jovem que dormia, pegaram ele e tentaram retirá-lo pela janela, sem conseguir. Tentaram passa-lo pela porta e também não conseguiram. Inventaram até de retirá-lo pelo telhado... e não conseguiram. E o incêndio alastrava pela casa. Até que alguém lembrou, no meio do desespero: acordem o jovem... e ele sairá por seus próprios pés!

Parece ser esta a tarefa mais urgente que angustia os jovens de hoje... e esta se torna assim a urgência maior de quem se propõe fazer algum trabalho com juventude.  Ninguém ensina a ser gente, a ser feliz. Quando éramos crianças, perguntavam o que queríamos ser quando crescêssemos. Quando viramos adultos, não perguntam mais. E, se perguntassem, talvez muitos quisessem voltar a ser crianças. Ou aprendemos quebrando a cara... pela dor e pelo sofrimento, ou corremos o risco de passar pela vida sem saber quem somos e para que viemos. Costumamos dizer que a vida é uma escola... mas muitos só vão na hora da merenda! Ou então podemos perguntar: escola para que? Para a vida... ou para adequar as peças à engrenagem do sistema?!

Dizem que os dois dias mais importantes da sua vida, são o dia em que você nasceu...e o dia em que você descobriu para que nasceu! Isso é autoconhecimento. E essa tarefa não tem resposta no Google, nem pode ser terceirizada ou dada de mão beijada por alguém. Se você não fizer essa viagem dentro de você mesmo, em busca do sentido da sua vida, o preço será alto e às vezes irrecuperável. Seja você mesmo! Não tenha medo de ser diferente dos outros... tenha medo de ser igual e um dia descobrir que todos estavam errados. E Krishnamurti lembra que não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente.

Às vezes a felicidade bate à sua porta... e você está no quintal procurando o trevo de quatro folhas. A felicidade está dentro de você, esperando ser descoberta, cultivada e transbordada... mas você corre o risco de esperar coisas mágicas que a façam aparecer ou fica esperando que ela venha do dinheiro, da profissão ou do relacionamento.

2.     Autoconhecimento e Sentido da Vida

Cada pessoa tem um dom único e um jeito único de expressar esse dom. Descobrir isso e colocar esse dom a serviço dos outros e do mundo, é a condição de realização pessoal e de felicidade autêntica. Descobrir quem eu sou, quais as minhas potencialidades e limitações, descobrir a minha essência como aquela verdade mais profunda que eu carrego como centelha divina, saber por que estou aqui e para que nasci, encontrar um sentido para viver, uma missão, um propósito de vida e um projeto de futuro... são as condições de uma existência com sentido e com valor.

Cada vez mais os jovens são exigidos, cada vez mais cedo, adolescentes ainda, a escolher o que vão fazer durante o resto de suas vidas. Mas... como responder a essas exigências cada vez mais precoces, sem eu me conhecer?! Se você quer ser feliz e realizar-se como pessoa, descubra seu dom único e seu jeito único de expressá-lo e coloque isso a serviço dos outros e do mundo. Agora... se a questão, para você, é ter êxito e sucesso, ganhar dinheiro e se dar bem na vida... bom... aí então: descubra seu dom único e seu jeito único de expressá-lo e coloque isso a serviço dos outros e do mundo! Não se iluda, porque não tem outro caminho sustentável. Enquanto você não tomar consciência dos seus mecanismos inconscientes, eles irão comandar e decidir a sua vida... e você chamará isso de sorte ou azar – como dizia Jung. Mas... quem tem um sentido para viver – dizia Vitor Frankl, é capaz de suportar quase qualquer coisa. O maior desafio da vida é descobrir quem você é. O segundo maior desafio é ser feliz com o que você descobriu.

Descobrir o Sentido da Vida... porque ir de casa para o trabalho e do trabalho para casa, não é um projeto de vida. É só um trajeto! A vida é mais, infinitamente mais, do que comer, dormir, trabalhar e procriar... porque quem cuida de coisas pequenas, acaba se tornando anão – dizia Ulisses Guimarães.

3.     Autoconhecimento  e Relacionamentos  Afetivos

A juventude é a estufa da afetividade. Ninguém ama o que não conhece... e, poderíamos dizer, ninguém ama se não se conhece. Ama o teu próximo como a ti mesmo – diz a Boa Notícia de Jesus. Mas, que amor haverei de dar, se não sei nem quem eu sou?! A afetividade é a linguagem da doação de si... mas, o que vou doar se não conheço o tesouro que carrego em mim? Sem autoconhecimento, os relacionamentos afetivos se tornam cobranças pelo preenchimento de carências.  Cada um de nós só enxerga nos outros aquilo que existe dentro de si... e por isso, sem um processo consciente de autoconhecimento, corremos o risco de andar pela vida brigando com os espelhos que os outros são de nós mesmos e que nós somos para os outros. Briga de espelhos, briga de Egos, briga com nossas sombras inconscientes, relacionamentos baseados em expectativas, que sempre acabam sendo frustradas. Esperamos dos outros o amor que não tivemos, a segurança que não experimentamos ou a valorização que não recebemos... e, em vez de assumirmos a tarefa inalienável e intransferível de darmos a nós mesmos o que nos faltou, passaremos a vida esperando e cobrando isso dos outros. Conhecer-se e aceitar-se, amar o que se é e do jeito que se é, fazer algo bom e significativo com aquilo que a vida fez de nós... ser uma boa companhia para si mesmo, ser capaz de estar só e aí encontrar a porção de prazer suficiente para ser feliz... é a primeira condição para ser capaz de criar um relacionamento maduro e sustentável com alguém, de forma a doar-se generosamente. Só é capaz de um relacionamento maduro quem aprendeu a ser só, para depois, livremente, transbordar-se!

Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não nos contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta e que ninguém faz ninguém feliz. A gente cresce através de si mesmo. Se estivermos em boa companhia, é só mais agradável!

4.     Autoconhecimento e Serviço ao Outro

O macaco passou perto do riacho e pegou um peixe... e, quando o viu morrendo em suas mãos, comentou surpreso: que pena! Tirei-o da água para ele não se afogar e ele morre agora nas minhas mãos!

Sem autoconhecimento, nunca conheceremos verdadeiramente o outro, os outros diferentes... e corremos o risco de projetar no serviço aos outros as nossas expectativas e as nossas sombras, transferindo para o serviço as nossas feridas mal curadas ou às vezes nem percebidas. Quantas vezes, buscamos no serviço ao outro a satisfação egoísta de nossas carências e o preenchimento de nossos vazios?! Conhecer o outro, os vários outros, é a condição fundamental para um serviço livre e libertador, gratuito e incondicional. Mas a condição primeira para que isso seja verdade, é sempre e de novo... conhecer-se! Sem autoconhecimento, o serviço aos outros pode ser opressão ou utilização do outro, pode tornar-se peso que cansa e esgota, frustração de expectativas inconscientes ou dominação, busca de status ou poder, prestígio manipulação. Por isso, se você quer ajudar alguém, a melhor forma de o fazer é começar conhecendo a você mesmo! Quando você muda, algo muda ao seu redor e você se torna espelho para que o outro perceba que dentro dele mesmo tem a fonte de sua felicidade. Seja você a mudança que você quer no outro! Seja você a mudança que você quer no mundo! Porque não se iluda: nada muda se você não mudar! E você sabe: não há mudança sem autoconhecimento!

Mestre, como devemos tratar os outros?! Que outros?! – respondeu o mestre. Não existem outros. Essa é a lição maior capaz de sustentar uma atitude de serviço ao mundo e de relação saudável com os outros: descobrir-se parte do todo, porque somos todos Um. Mas isso só se experimenta num caminho profundo de autoconhecimento, capaz de nos levar até às planícies da Essência.

5.     Autoconhecimento e Resolução de Conflitos

Juventude é idade de conflitos, de rupturas, consigo mesmo e com os outros. Deixar de ser, para buscar ser. Conflito com a própria identidade. Afirmação pessoal. Construção da individualidade. Conflito com os outros, conflitos familiares, conflitos de gerações...

E como não ser tragado pelos conflitos ou como resolvê-los de forma pedagógica e terapêutica, se não houver um processo de tomada de consciência?

Dizia Rubem Alves: Não, não é verdade que o sofrimento torna melhores as pessoas. O sofrimento frequentemente embrutece, tira a sensibilidade, tira a esperança, torna cruéis as pessoas. Um Deus – ou força cósmica – que usasse o sofrimento para a evolução, seria muito curto de inteligência – não saberia aquilo que os homens aprenderam: que a única força capaz de fazer as pessoas ficarem melhores é o amor.

Numa fase da vida onde os conflitos são o pão nosso de cada dia, autoconhecimento é ponto de partida seguro. Saber onde nascem suas raivas e de onde vêm seus medos, encontrar as fontes da ansiedade e das carências e vazios, aprender a dialogar com esses monstros que nos habitam e nos tiram a paz interior... domesticar esses dragões e colocá-los ao nosso serviço... é tarefa que não pode esquecer, quem quiser assumir a responsabilidade por si mesmo, em vez de passar pela vida atribuindo aos outros ou às circunstâncias a causa de seus estados emocionais. Quem acha que sente raiva porque alguém o feriu, também irá continuar esperando que alguém o faça feliz. O conflito de todos os conflitos, acontece dentro de cada pessoa. Os conflitos externos são apenas reflexos dessa luta interior. Aquele que aprender a fazer as pazes consigo mesmo, tendo compaixão por si mesmo, terá superado o pior de seus inimigos e terá vencido a maior de todas as lutas e terá aprendido a resolver todos os conflitos. 

6.     Autoconhecimento e Espiritualidade

Conhece-te a ti mesmo. A melhor maneira de se chegar ao conhecimento de Deus é através do conhecimento de si mesmo – dizia Tereza de Ávila. E continuava: não penseis que havereis de entrar no Céu sem primeiro entrar dentro de vós mesmos a fim de conhecer a vossa miséria.

Tomás de Aquino lembrava que quanto mais eu vou ao encontro de mim, mais eu descubro em mim um Outro que não sou eu, mas que, no entanto, é o fundamento do meu existir. Espiritualidade sem autoconhecimento pode tornar-se presunção e autoconhecimento sem espiritualidade pode levar ao desespero – dizia Pascal.  Tenho medo do homem cujo Deus está no Céu... e acredito na pessoa que descobre Deus dentro de si mesma, e a partir dessa fonte estrutura a sua vida. Mística é tornar-se uno com a criança divina em nós, com o verdadeiro ser, com o mistério da própria individualidade que é partícipe de Deus – fala Anselm Grün, lembrando que espiritualidade e autoconhecimento não podem soltar as mãos. Clemente de Alexandria já lembrava:  Parece pois, que o mais importante de todos os conhecimentos é o conhecimento de si mesmo; pois quando alguém se conhece a si mesmo ele há de chegar ao conhecimento de Deus... e Guilherme de St. Thierry dizia: Conhece-te a ti mesmo, porque és a minha imagem, e assim hás de conhecer a mim, de quem és imagem. Em ti tu me encontrarás. E podemos escutar ainda Bernardo de Claraval resumindo: Reconhece-te como imagem de Deus e envergonha-te por a teres recoberto com uma imagem estranha. Lembra-te de tua nobreza e envergonha-te de quanto decaíste! Não deixes de reconhecer tua beleza, para que mais ainda te angusties por tua fealdade. O nascimento de Deus se dá no fundo da alma humana, como dizia o Mestre Eckart.

Leonardo da Vinci dizia:  Uma vez que você tenha provado o voo, andará para sempre pela terra com os olhos voltados para o céu. Quem lá esteve, sempre haverá de querer voltar. Porque, dentro de cada pessoa há um vazio do tamanho de Deus, como lembrava Dostoievsky... e se o vazio é do tamanho de Deus, não podemos preenche-lo com migalhas ou com nadas.

Autoconhecimento e Espiritualidade... Autoconhecimento como caminho de Espiritualidade: uma espiritualidade como sentido da vida, de dentro para fora e de baixo para cima, livre e libertadora, capaz de gerar sentido, a partir do humano e nunca fora dele ou a ele alheia ou muito menos desprezando-o.  Uma Espiritualidade que fale de liberdade. A maioria das pessoas não quer a liberdade, pois a liberdade envolve responsabilidade, e a maioria das pessoas tem medo da responsabilidade – dizia Freud. Pássaros criados em gaiolas, acreditam que voar é uma doença. Mais importante que a liberdade de voar é saber para onde ir e não chega a lugar nenhum quem não sabe onde quer chegar.  Não basta motivação: na subida do Everest, existem muitos corpos de pessoas altamente motivadas.

  1. 7.     Autoconhecimento, Missão de Vida e Projeto de Futuro

Reza a lenda que quando Deus criou cada pessoa, falou assim no seu ouvido: não fuja de mim... porque, se você fugir, eu vou precisar procurar você! E falou mais... dizem que Ele deu a cada um de nós uma missão, uma tarefa de vida e divina, uma mensagem para cada um transmitir ao mundo.  Esquecemos esse recado divino que Ele nos falou lá no começo de tudo... e estamos aqui para isso e para isso temos a vida inteira: relembrar, descobrir e assumir essa missão de vida. No sério mesmo e na boa, é a essa a grande tarefa do Autoconhecimento: ajudar cada pessoa a descobrir a sua missão e a construir o seu projeto de vida.  Isso está dentro, tatuado no mais profundo do coração humano. E só um processo profundo de autoconhecimento pode ajudar cada jovem a redescobrir essa tatuagem sagrada, onde está o roteiro da felicidade e da realização. Enquanto não redescobrirmos esse Plano ou Missão que esse Alguém sonhou para nós, passaremos pela vida fazendo planos nossos, pequenos e mesquinhos, ilusórios e passageiros, que o vento leva. Deus deve rir muito se contarmos para Ele os nossos planos...e nós, sem dúvida, seremos felizes quando encontrarmos o Plano que Ele sonhou para cada um de nós! Autoconhecimento não é apenas para entender como eu sou e por que sou assim. É muito pouco quando o autoconhecimento se limita à consciência e compreensão do traumas e mecanismos de comportamento. Autoconhecimento é o caminho que nos leva à descoberta da nossa Essência, do melhor de nós mesmos, do divino que somos no mais profundo da nossa individualidade, aí onde está inscrita a nossa Missão de Vida e a partir de onde podemos construir um Projeto de Futuro.

 

Autoconhecimento... uma linguagem que é música aos ouvidos dos jovens do nosso tempo. Uma sede grande. Uma urgência angustiante.  E, para todos aqueles que se propõem anunciar aos jovens uma Boa Notícia, uma tarefa indispensável, talvez a porta primeira, por onde se chega na vida dos jovens e através da qual os jovens podem chegar até Deus. Uma sede, um caminho, uma linguagem inteligível, uma música curtível, a primeira verdade que liberta... e uma tarefa grande para quem se propõe evangelizar jovens: proporcionar oportunidades de autoconhecimento, simples, claras, profundas e autênticas, libertadoras... a partir do mergulho dos próprios jovens no seu mundo interior, assustador e maravilhoso!

E qualquer trabalho com Juventude que não leve a isto ou não crie condições para isso, talvez corra o risco de contribuir apenas para fazer com os jovens o mesmo que a sociedade sempre fez e custa a abrir mão de fazer: manipular e adaptar, treinar e domesticar... para serem boas peças da engrenagem!

Mas... criar condições e oportunidades para que o Autoconhecimento aconteça como um processo de autodescoberta e aceitação e transformação a partir do próprio jovem... talvez seja tarefa sublime de quem se apaixonou pela vida e acredita que vale a pena dar a vida para que todos tenham vida e vida em plenitude!

 

Domingos Cunha, CSh.

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