Perdas na infância

A identidade pessoal é construída ao longo da vida. As perdas e carências da infância e adolescência levam a resoluções que constroem os traços centrais da personalidade. O ego (eu) representa um conjunto estratégico de adaptações e de defesas frente às defasagens ocorridas no processo de desenvolvimento humano.

Nossa vida se inicia com uma perda. Somos lançados para fora do útero totalmente indefesos. Nossa mãe se interpõe entre nós e o mundo. Essa primeira fase chamada de indiferenciação a criança não distingue a si mesma do resto das pessoas. O Eu – filho se confunde com o Tu – mãe e a criança é regida pelos mecanismos interoceptivos e não sobrevive por si só. Existe uma simbiose onde a criança estabelece com a mãe uma forte união e com quem se mistura. Não temos nenhuma necessidade maior do que sermos cuidados por nossas mães.

Nos primeiros anos de vida começamos a desenvolver a fase do reconhecimento do Eu, onde gastamos energia para descobrir nossa própria identidade. Nesse processo, até aprendermos a tolerar essa separação física e psicológica, a necessidade da presença da nossa mãe é real e absoluta.

Há um tempo certo para esta separação e se acontece quando somos muito novos, despreparados e desamparados o prejuízo deste sentimento de abandono e perda pode gerar traumas permanentes.

Contudo, todos nós somos abandonados pela nossa mãe. Ela nos deixa antes de sermos capazes de entender que ela vai voltar. Ela nos abandona para trabalhar, para fazer compras, para sair de férias, para ter outro filho ou simplesmente estando ausente quando precisamos dela. Ela nos abandona para ter uma vida à parte, a sua vida e precisamos ter nossa vida particular.

Separações graves no começo da vida deixam cicatrizes emocionais no cérebro porque interfere na conexão humana essencial. O elo mãe – filho nos ensina que somos dignos de ser amados e nos ensina a amar. Não podemos nos tornar seres humanos completos sem o apoio dessa primeira ligação.

Quando a separação põe em risco aquela ligação primeira, torna-se difícil criar confiança, segurança, adquirir a convicção de que durante a nossa vida encontraremos ou se merecemos encontrar, pessoas que satisfaçam nossas necessidades. E quando as primeiras conexões são instáveis ou desfeitas, ou mesmo prejudicadas, podemos transferir a experiência e as respostas a ela para aquilo que esperamos dos nossos amigos, nossos filhos, nosso marido, esposas, etc.

Naturalmente tem de haver separações nos primeiros anos de vida e sem dúvida, produzirão tristeza e dor. No entanto, a maioria das separações normais dentro de um contexto de um relacionamento afetuoso, confiável e estável, dificilmente deixará cicatrizes significativas.

Estudos demonstram que as perdas na primeira infância nos tornam mais sensíveis às perdas que sofremos mais tarde e podemos sentir dificuldades para criar estratégia de defesas contra as dores das separações.

Nenhuma dor é tão mortal quanto a da luta para sermos nós mesmos. (Ievguêni Vinokurov)

Elcia Rita Almeida Montenegro

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