Em busca do tesouro perdido

Eneagrama Mapa da Essência

Era uma vez um rei… que tinha um tesouro, que era a menina de seus olhos. Roubaram o tesouro do rei… e ele ficou desesperado! Entrou em crise, perdeu o sentido de viver a angústia tomou conta de seu coração. Mandou o exército passar o reino a pente fino, em busca do tesouro. E nada! No limite do desespero, o rei chamou seu filho, seu filho único, e lhe pediu: – Filho…você sabe o quanto esse tesouro é importante para mim. Você é a pessoa em quem eu mais confio. Reúna os melhores homens do exército e saia em busca do tesouro. Você é a minha última e grande esperança! O filho do rei andou pelos campos e pelas cidades, cruzou florestas em busca do tesouro do pai… e ao fim de três meses regressou ao palácio real… de mãos vazias. O pai ficou desolado e a raiva pela expectativa frustrada tomou conta dele. Desabafou com o filho em tom forte: – Meu filho…você sabe o quanto eu quero esse tesouro de volta… e você passa três meses procurando e volta sem ele! O que você fez durante todo este tempo? E o filho, todo sem jeito, apenas respondeu: – Pai… na verdade, a única coisa que eu fiz durante estes três meses… foi aprender a linguagem dos cachorros… Aí, o rei se revoltou: – Você sabe o quanto esse tesouro é importante para mim… você sabe o quanto eu estou sofrendo pela falta do tesouro… e você passa três meses conversando com cachorros?! Pois você está expulso de casa… e não volte enquanto não encontrar o tesouro! Expulso do palácio, o filho do rei andou vagueando sem rumo, pelas cidades e pelas aldeias. Um dia, atravessando uma floresta, caiu na mão de um grupo de salteadores, que o jogaram numa gruta profunda. Quando o jovem acordou do susto, lá no fundo escuro da gruta, viu-se rodeado de cachorros ferozes, querendo avançar sobre ele. No início, foi um choque de pavor… mas, lentamente, o jovem príncipe se acalmou ao lembrar que sabia a linguagem dos cachorros… e começou a conversar com eles. Aos poucos, os cachorros se acalmaram… e, surpreso, aquele jovem enxergou, atrás dos cachorros… o tesouro do pai! Entendeu então que os cachorros estavam lá precisamente para guardar o tesouro e que eles eram ferozes para proteger o valor do tesouro! E assim, fazendo amizade com os cachorros, depois de muita conversa, o jovem príncipe levou de volta o tesouro do pai!

Cada pessoa carrega em si um tesouro, a herança sagrada que a faz partícipe da divindade, a essência, a centelha divina que existe no mais profundo de si mesma, como o verdadeiro ser, o mistério da individualidade, uma tatuagem do Criador perpetuando a marca do artista de onde veio e para onde vai. Criados à imagem e semelhança de Deus, a narrativa do Gênesis lembra que em nós, como num espelho, Deus se faz presente. Esse tesouro, que é a essência sagrada que nós somos, foi ameaçado em algum momento da nossa história. Perdemos o contato com ele… com a fonte divina onde tudo ganha sentido. Com medo de perder o tesouro ameaçado, criamos cachorros ferozes para protegê-lo. Esses cachorros cresceram e se tornaram tão ferozes que nos amedrontam e impedem que enxerguemos o tesouro. Continuamos alimentando os cachorros… pois embora eles nos oprimam e amedrontem, é maior o medo de perder o tesouro. Sentimos saudades do tesouro e nossa vida perde o sentido se perdemos a conexão com ele. Procuramos desesperadamente esse tesouro… muitas vezes fora de nós, pois é assustador olhar para dentro e deparar-se com os cachorros ferozes.

Podemos dizer que o Eneagrama é o código do tesouro do rei. Ele nos ensina  dar nome  à essência sagrada, à centelha divina que é nossa verdade mais profunda, nosso tesouro. À essência chamamos Virtude: é a valia da pessoa. ‘Virtus’ é a força que sustenta a vida, a centelha da vida, a energia sagrada. A Virtude, é a atitude emocional que traduz a Idéia Santa – aquela compreensão original e harmoniosa, não distorcida, de Deus, do ser humano, da vida. Poderíamos dizer que o Eneagrama dá nome ao tesouro da parábola, explicando-o, para cada pessoa, com uma Idéia Santa e uma Virtude que lhe corresponde: é a essência de cada pessoa.

E quando a essência sagrada foi ameaçada, quando roubaram o tesouro dos olhos do rei, os cachorros ferozes que criamos chamam-se Pecados de Raiz ou Paixões. A palavra ‘Pecado’ nasceu nos ambientes do arco e flecha, para dizer quando o guerreiro antigo errava o alvo. Lembra assim, uma energia que é orientada na direção errada… e isso nos ajuda a entender que esse cachorro, criado para proteger o tesouro, acaba impedindo que tenhamos acesso a ele. O termo ‘Paixão’ nos lembra movimento interior, força, energia que move. Assim, a cada Virtude corresponde uma Paixão ou Pecado de Raiz… criado para proteger, mas na prática impedindo o contato com o tesouro. Alimentamos esse cachorro com aquilo que o Eneagrama chama de Mecanismo de Defesa… ou talvez possamos dizer que esse alimento cega e mantém cego o cachorro do Pecado de Raiz ou Paixão.

O Eneagrama nos ensina ainda a linguagem dos cachorros, dando nomes a eles e estimulando a conversa… até que eles, um dia domesticados, nos deixem resgatar o contato com o tesouro perdido, a essência sagrada por quem ansiamos. Foram úteis esses cachorros. O problema é que eles se tornaram ferozes demais. Não precisamos despedi-los nem mata-los… mas apenas domesticá-los. Talvez eles sejam úteis às vezes. Apenas precisamos que obedeçam ao nosso comando.

Podemos considerar que o Eneagrama é o mapa que explica este caminho da essência até à máscara e da máscara até à essência, passando pela conversa com os cachorros. Os Padres do Deserto, que de maneira profunda e sutil caracterizaram as Virtudes e as Paixões, também nos deixaram a técnica do Porteiro, para conversarmos com as Paixões quando elas batem na nossa porta: converse com elas… pergunte de onde vêm e para onde vão, o que desejam e por que estão chegando agora… e decida se elas são ou não oportunas e bem vindas!

A isto podemos chamar a dimensão espiritual do Eneagrama: ele nos fala de uma essência e para ela orienta nossa caminhada.

De onde venho e para onde vou? Qual é raiz de mim? qual é a essência que está por trás do meu Tipo de Personalidade? Qual é o Segredo da minha realização como pessoa? Qual é o Sentido da minha vida?

Espiritualidade é aquilo que provoca transformações interiores significativas na vida da pessoa e concretiza-se num jeito próprio de se relacionar consigo mesmo, com os outros, com o cosmo e com o Transcendente. Espiritualidade como sentida da vida.

“Quando vou ao encontro de mim mesmo, encontro dentro de mim um Outro que não sou eu e que no entanto é o fundamento do meu existir”- dizia Tomás de Aquino. E Teresa de Ávila lembrou: “ a melhor maneira de se chegar ao conhecimento de Deus, é através do conhecimento de si”, na mesma intuição da sentença atribuída a Maomé: “Se te conheces, conheces a Deus”.

“Não sabeis que sois templos de Deus e o Espírito Santo de Deus habita em vós? Se alguém destrói o templo de Deus, será destruído. O templo de Deus é santo e esse templo sois vós” – assim fala Paulo em 1 Cor. 3, 16-17. Guilherme de Saint Thierry, na trilha fecunda dos Padres do Deserto, diria: “Procure conhecer-se a você mesmo, porque você é minha imagem e assim você reconhecerá essa imagem que eu sou em você. Você me encontrará em você mesmo.” E talvez a sentença de Bernardo de Claraval resuma tudo o que até aqui dissemos: “Procure reconhecer-se como imagem de Deus e tome consciência de que ela está encoberta por uma imagem estranha. Não esqueça de sua beleza, que você tanto prejudicou com sua feiúra.”

Falar de dimensão espiritual do Eneagrama poderá então significar que olhemos esta sabedoria como um mapa do território onde nos movemos, somos e existimos. Um mapa que ajuda a decifrar caminhos. Os caminhos que percorremos da essência até onde estamos hoje, carregando máscaras. E os caminhos que podem nos levar de volta à essência, ao encontro da fonte de onde viemos e para onde vamos, pois só lá a nossa sede será saciada!

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