Educação Integral

“Mais uma vez os homens, desafiados pela dramaticidade da hora atual, se propõem, a si mesmos, como problema. Descobrem que pouco sabem de si, de seu ‘posto no cosmo’ e se inquietam por saber mais. Estará, aliás, no reconhecimento do seu pouco saber de si uma das razões desta procura. Ao instalar-se na quase, se não trágica descoberta de seu pouco saber de si, se fazem problemas a eles mesmos. Indagam. Respondem e suas respostas os levam a novas perguntas”.

Paulo Freire

A Educação formal é um processo de formação humana, porém não deve ser entendida como simplesmente transmissão de conteúdos e formação de profissionais para atender às demandas do mercado de trabalho. A educação vai muito mais além quando aborda o indivíduo na sua dimensão biopsicossocioespiritual1 para buscar a harmonia e desenvolver uma cultura de paz tão apregoada no século XXI por todos aqueles envolvidos com a tarefa de educar.

Considerando ainda que os atuais métodos educacionais não têm se mostrado eficazes, sobretudo nesse contexto, consideremos o que diz Moraes (2005), quando afirma que “uma ciência do passado produz uma escola morta, dissociada da realidade, do mundo e da vida. Uma educação sem vida produz seres incompetentes, incapazes de pensar, construir e reconstruir o conhecimento”. E conclui: “Uma escola morta, voltada para uma educação do passado, produz indivíduos incapazes de se autoconhecerem, como fonte criadora e gestora de sua própria vida, como autores de sua própria história”.

A escola formal deixa de ser a principal fonte de informação e cada um procura sua formação através de uma conjugação de ensino regular, cursos avulsos e principalmente o desenvolvimento de sua capacidade de ser auto-didata. A recepção passiva de informações já não mais é realidade e tanto as empresas como escolas privilegiam a capacidade de aprender e de buscar as informações de que o indivíduo necessita e a capacidade de se auto-desenvolver.

D´Ambrósio (1997) afirma que:

Ao professor é reservado o papel de dialogar, de entrar no novo junto com os alunos, e não o de mero transmissor do velho. O professor cuja atividade é transmitir o velho não tem mais espaço neste mundo que estamos começando a viver. É nesse sentido que podemos dizer que estamos entrando numa nova era na educação.

A Prof.ª Maria Cândida Moraes propõe em seu trabalho a construção de um novo paradigma para a educação, paradigma este que possa corresponder às expectativas do novo modelo que vivemos. Segundo Moraes (1997):

A matriz educacional que se apresenta com base no novo paradigma é muito mais ampla em todos os sentidos, revela o início de um período de aprendizado sem fronteiras, limites de idade e pré-requisitos burocráticos, traduz uma nova abertura em relação à comunidade na qual a escola está inserida.

A educação, segundo Maria Cândida, não pode deixar de contemplar uma das mais marcantes características desta fase de nossa humanidade, que é chamada pela autora de “Era das Relações“. Segundo Maria Cândida, os avanços da física neste século nos provam que “Saímos de uma Era Material para uma Era das Relações (Harman 1996b) (…)”, assim “(…) a natureza passou a ser compreendida como uma totalidade indivisa em movimento fluente, uma grande teia de relações e conexões.” Portanto, a educação deverá ser o instrumento que a própria humanidade terá que se utilizar para facilitar a transição desta Era da Matéria para a Era das Relações, facilitando a interação interpessoal, o desenvolvimento integral do indivíduo e do “sujeito coletivo“. Veja o que a autora diz:

Uma educação para a Era das Relações almeja uma proposta educacional que reflita e englobe tanto as dimensões materiais quanto espirituais da sociedade, que busque a superação de metas voltadas para a erradicação do analfabetismo, a melhoria da qualidade com eqüidade, a superação dos índices de evasão e repetência, mas que, simultaneamente, favoreça a busca de diferentes alternativas que ajudem as pessoas a aprender a conviver e a criar um mundo de paz, harmonia, solidariedade e fraternidade.

Esta transformação na concepção da educação ultrapassa rapidamente as fronteiras da educação clássica e acaba por determinar o perfil do educador e do educando nesta Era das Relações. Portanto, é preciso ousar, nadar para águas mais profundas, ir ao encontro do ser, romper as barreiras do raciocínio cartesiano e enveredar na aventura do autoconhecimento e na realização plena do ser como bem dizia o grande filósofo Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo”. O pior de uma boa pergunta é uma resposta que pode acabar com a curiosidade de quem questiona; e mesmo porque nem sempre temos as respostas! Na verdade, constatamos que nos conhecemos parcialmente e muitas vezes de forma enganosa. Isto porque somos indivíduos inseridos em um tempo: presente, passado e futuro; e quem fomos ontem, não somos hoje e quem somos hoje, não seremos amanhã, como afirma Sêneca: “Não podemos atravessar duas vezes o mesmo rio”.

Trazer o tema da espiritualidade para a educação não significa cair no ensino confessional impositivo em nenhum espaço onde se trabalha com formação humana. Significa sim, compreender a nossa essência, a nossa espiritualidade como busca de transcendência, isto é, um ser que faz uma busca de significado para a vida tanto no plano individual como no coletivo.

Os seres humanos na sua busca incessante pela felicidade e no seu desejo de autotranscendência têm procurado na educação e na espiritualidade respostas para suas inquietações, como afirma Pedro Bezerra de Araújo, escritor e mestre em educação e psicologia: “O anseio da felicidade integra o universo necessário do ser humano. No entanto, muitos fazem como o cachorro que corre latindo atrás do carro e, quando o carro pára, ficam sem saber o que fazer”. O Eneagrama2, nos revela o mapa de nossa identidade, diante de um mundo em plena construção.

O Eneagrama é antes de mais nada um instrumento de autoconhecimento e transformação pessoal, e sobretudo, um facilitador das relações interpessoais. Técnica internacionalmente reconhecida e já utilizada pelas universidades de Berkeley e Stanford nos Estados Unidos e, no Brasil, pela FGV, IBEMEC, FIA (Pós- Graduação da USP) e Faculdade Católica de Fortaleza, com aplicação nas áreas da educação, psicologia, administração, saúde e espiritualidade, identifica o estilo de atuação, os elementos motivadores e os desmotivadores para indivíduos e equipes profissionais. Propõe nove Tipos ou estruturas de personalidade. Acumula uma tradição oral de cerca de 4.500 anos, que nas últimas décadas vem sendo resgatada, com sinais de grande potencial de ajuda. Situa-se como proposta de ponte entre a Psicologia e a Espiritualidade. É uma tipologia dinâmica,  aberta ao crescimento, que se une com as descobertas das grandes escolas psicológicas da atualidade, integrando-as e indo além delas, num esquema que consegue conjugar profundidade e simplicidade de compreensão. É um caminho de crescimento e além de ser uma chave de leitura para a pessoa se entender, ele aponta pistas concretas de amadurecimento, ajudando cada pessoa a desenvolver suas potencialidades e a lidar melhor com seus pontos fracos.

Nas palavras de Richard Riso, grande expoente ocidental do tema: “O Eneagrama manteve-se vivo ao longo de 4.500 anos porque funciona”. Ora, um instrumento mantido vivo por milênios, apenas por tradição oral até os nossos dias, precisaria de uma grande consistência interna e praticidade comprovada. “Quanto mais se aprofunda no Eneagrama, mais convicção se tem de que ele não foi inventado, mais foi descoberto”. Acrescenta o mesmo autor. No dizer de Domingos Cunha (2005), o Eneagrama é: “fruto da observação atenta e paciente do ser e do agir das pessoas e da identificação de suas motivações, moldou-se esse corpo profundo e coerente, bem articulado, dinâmico e claro a que chamamos de Eneagrama”.

Ainda segundo o mesmo Domingos Cunha: “Neste tempo de saídas alternativas que são experimentadas em diversas áreas, o Eneagrama se nos apresenta como uma psicologia e uma terapia alternativas, com resultados práticos ao alcance de todos”. Apresenta-se como um espelho ou um mapa claro do que somos e porque somos e, como excelência de sua tradição, nos dá pistas seguras de como e por onde devemos caminhar na direção da nossa integração pessoal e interpessoal de forma mais humana e autorealizadora.

1 Termo criado pela educadora Maria Cândida de Moraes para se referir aos aspectos biológicos, sociológicos, sociais e espirituais, necessários a uma Educação Integral.

2 Na geometria um eneagrama é uma figura geométrica com nove pontas. Na psicologia este corresponde à teoria do Eneagrama de Personalidade, ferramenta de trabalho desse projeto.

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