Uma Oração Integradora

Segundo dados das Nações Unidas, atualmente no mundo, há mais pessoas que praticam, do que pessoas que não praticam. Desde 1970, mais de mil estudos foram feitos em laboratórios e citados em revistas científicas livros e teses acadêmicas – só em língua inglesa. É uma prática com mais de cinco mil anos. Todas as grandes religiões praticam. A ciência comprova que faz bem à saúde física, emocional e mental.

Na tradição cristã, pratica-se desde o início: é familiar ao ambiente de Jesus e dos Apóstolos e entre os primeiros cristãos; os ‘pais e as mães do deserto’ praticavam como segredo de felicidade…

S. Francisco de Assis dizia que era melhor praticar do que ler mil tratados espirituais. No século XVI, o autor da ‘Nuvem do Não Saber’, exalta essa prática e a explica detalhadamente. Esta obra influencia Santa Teresa de Ávila e S. João da Cruz, que elevam essa prática aos umbrais da experiência mística. Mais tarde, os ‘Relatos de um Peregrino Russo’ resgatam essa prática dentro da tradição hesicasta, que a preservou de forma bem mais cuidadosa que o nosso mundo ocidental.

Hoje, muita gente busca esse caminho! Muitas pessoas, procuram fora da Igreja, por não saberem que isso faz parte da tradição mais autêntica do cristianismo.

Trata-se de algo extremamente simples… e extremamente difícil… precisamente por ser simples demais! Quem pode respirar, vai poder praticar! A pessoa pode aprender a praticar, sozinha e não gasta muito tempo para praticar.

No entanto… para aprender a praticar, a pessoa vai demorar pelo menos a vida inteira e, segundo dizem, de cada mil pessoas que começam a praticar, apenas uma persevera!

Estamos falando de Meditação Cristã.
Quando hoje falamos de Meditação dentro da tradição cristã ocidental, logo entendemos como um exercício da mente a partir de um texto bíblico. Este sentido, que apareceu bem mais tarde no ocidente cristão, sobrepôs-se ao original, que encontrava sua explicação no termo latino ‘meditatio’ (estar no meio, permanecer no centro) e no termo grego ‘meletan’ (repetir). De fato, na prática dos ‘pais e mães’ dos deserto antigos do Egito, meditar consistia em repetir um versículo bíblico e com isso eles testemunhavam alcançar o centro de si e aí permanecer, aí nesse centro pessoal onde Deus habita, por ser a pessoa humana sua imagem e semelhança e seu templo.

João Cassiano, um nome grande entre os Pais do Deserto, nos deixou testemunho belíssimo desta prática tão difundida entre os mosteiros da época: uma oração silenciosa, um tipo de oração contínua, que consistia em repetir uma expressão bíblica… caminho aconselhado para ajudar a centrar a pessoa em Deus, afastando-a das distrações da mente e do coração e do corpo.

Lá entre os Pais do Deserto, outros nomes assim rezavam e ensinavam a entrar em comunhão profunda consigo mesmos e com Deus. Santo Agostinho, na Carta a Proba (Carta X, 20), fala de uma ‘novidade’ que os monges do Egito praticam em sua oração: repetem freqüentemente brevíssimas orações, ‘num abrir e fechar de olhos’. Agostinho usa o verbo ‘lançar’… como se os monges lançassem para o alto estas brevíssimas orações. Mais tarde, na tradição cristã, a palavra ‘jaculatória’, que também tem o sentido de ‘lançar’, vai se tornar bem popular na espiritualidade ocidental e assume também este sentido da oração praticada no deserto.

Esta é a oração dos Pobres… que também lhes foi tirada ao longo dos tempos, em troca de formas complicadas de rezar que a nossa mente ocidental racional, complexa e sofisticada, herdou dos gregos e foi refinando cada vez mais, tornando a oração inacessível às pessoas e distanciando-a do coração da gente, como algo fragmentado que dificulta a experiência de Deus.

A Igreja no Oriente preservou de forma bem melhor este tesouro de oração, talvez porque suas águas não se misturaram com a preocupação em conceitualizar e racionalizar…
A Meditação unifica o corpo, o coração e a mente… ajudando a pessoa toda a centrar-se em Deus, mergulhando no mais profundo de si mesma, aí onde Deus habita e se deixa encontrar. Não nos detemos pensando em Deus, nem falando com Ele, nem pedindo… simplesmente permanecemos com Deus! Estar com Deus… é como ir na praia e deixar-se bronzear pelo sol… ou como saborear a presença silenciosa da pessoa amada…

Mariano Ballester, diz que ‘a oração mais profunda, mais pessoal, mais interior, mais mística, não é aquela que usa os artifícios de uma cultura sofisticada; ela não precisa de conceitos complicados nem de linguajar enfeitado. Ela não usa métodos refinados acessíveis somente depois de longo treinamento. Muito pelo contrário, ela é simples, e de uma simplicidade somente acessível aos simples’.

Talvez hoje, quando ouvimos falar em Meditação… logo nos reportemos às religiões orientais, que muito a tem difundido entre nós. Embora se trate da mesma prática que, como dissemos, está presente em todas as grandes tradições religiosas da humanidade, haveremos de encontrar algumas diferenças essenciais entre aquilo que se experimenta na tradição cristã e aquilo que nos é ensinado nas religiões orientais. Poderíamos distinguir três dimensões essenciais neste tipo de oração: o objetivo, o objeto e a técnica. Quanto ao objetivo, temos diferenças centrais entre a compreensão oriental e a visão cristã de meditação: o vazio dos orientais é preenchido na experiência cristã pelo encontro amoroso com o Deus que nos habita, por que fomos criados ‘à sua imagem e semelhança’ e somos ‘templos do Espírito Santo’. Quanto ao objeto (a estratégia usada ou aquilo em que concentramos a atenção de nossa mente durante a meditação), podemos também considerar diferenças significativas: na meditação oriental, o objeto pode ser apenas concentrar-se na respiração, numa sensação do corpo, num ponto fixo exterior ou interior, num mantra que tem caráter de uma intensa vibração energética. Na meditação cristã, o objeto é essencialmente um mantra que, como caminho, nos ajuda centralizar todas as atenções do corpo, do coração e da mente na fonte que é Deus. Na mais antiga tradição cristã, o mantra é um versículo bíblico. Quanto à técnica, podemos sem dúvida encontrar-nos em sintonia e certamente podemos enriquecer-nos muito com a experiência acumulada pelas tradições orientais. Eles, praticando e preservando o caminho da meditação de forma bem mais significativa do que o nosso ocidente cristão, terão muito a dizer-nos a respeito de técnicas e práticas, úteis e experimentadas, capazes de ajudar na harmonização do corpo, do coração e da mente. Basta lembrarmos o rico manancial das tradições de Yoga, com suas pistas sobre respiração e posturas corporais…

1. Por que Meditar

Conta a lenda indiana, que o almiscareiro das montanhas, uma espécie de cervo, sente em determinada época do ano um irresistível perfume de almíscar. Seduzido pela intensidade do perfume, ele corre de um lado para o outro, ansioso por encontrar a fonte de onde vem tão forte odor. Corre pelas montanhas, corre sem parar, noites e dias sem repouso e sem alimento… e um dia, mais tarde ou mais cedo, abatido pelo cansaço e esgotado pela busca, acaba tropeçando e caindo em algum abismo. E quando seu corpo se rebenta no embate com as pedras do fundo do abismo, do seu peito rasgado, escorre o almíscar… enquanto sua respiração se extingue.

Não meditamos para outra coisa que não seja beber nessa fonte de almíscar que mora no profundo de nós mesmos, aí onde Deus habita e se deixa encontrar!
‘Todo o homem carrega dentro de si um vazio do tamanho de Deus’, dizia Dostoievski. E só Deus poderá saciar esse vazio profundo e por isso precisamos mergulhar nessa fonte capaz de saciar plenamente. Por isso meditamos! Para isso meditamos! Apenas por isso e para isso! Porque isso basta!

2.1. Os resultados ao nível Físico-Biológico

Podemos resumir que ao nível físico, a meditação gera sinais muito positivos, como o aumento de energia e de vigor, acelera a recuperação de doenças, diminui a gravidade de ataques de asma e de outras reações alérgicas, baixa significativamente a pressão sanguínea, reduz o stress e doenças relacionadas a ele, como cardiopatias, hipertensão e insônia, alivia significativamente dores esporádicas e crônicas devidas à artrite, problemas nas costas, etc., melhora o tempo de resposta, a capacidade motora, a coordenação e outras respostas físicas…

2.2. Os resultados ao nível Emocional

Os estudos científicos confirmam também os efeitos benéficos da meditação no bem-estar psicológico e no desenvolvimento mental.
Maior estabilidade emocional, desprendimento, independência, espontaneidade, menos ansiedade e depressão, redução da dependência por drogas lícitas ou ilícitas, empatia…

2.3. Os resultados ao nível Racional-Espiritual
A meditação ajuda eficazmente na saúde mental, proporciona um raciocínio mais acurado e pensamentos mais criativos, aumenta a capacidade de concentração e melhora a memória e a inteligência. Ajuda a ganhar distância em relação aos problemas e a desenrolar situações embaraçosas. Potencializa a liberdade e a objetividade reflexiva e mantém nossa mente atenta e desperta a cada momento da vida presente, libertando-a do peso do passado e da ansiedade do futuro. Na meditação, a atenção é dirigida a uma única coisa, que se transforma numa âncora poderosa no meio do turbilhão de pensamentos e sentimentos. Quando nos concentramos num único objeto, o número de sinais enviados ao cérebro fica muito reduzido, o que permite que a mente se acomode num estado profundamente relaxado, mas alerta.

A consciência calma e a permanência no objeto da meditação, permitem que a pessoa desenvolva a concentração e a lucidez, aumentando assim a sua qualidade de vida.

3. O que é Meditação Cristã

É específico da meditação cristã esse encontro pessoal e íntimo com Deus, no profundo da própria pessoa, como nos diz John Main: ‘o objetivo da meditação… consiste em nos voltar para nossa própria natureza com total concentração, em nos fazer experimentar nossa criação em primeira mão e, sobretudo em nos conduzir ao Espírito vivo de Deus que habita em nossos corações e em nos ajudar a experimentar a sua presença’.

Trata-se de um caminho rumo ao centro, capaz de proporcionar um mergulho pleno no amor de Deus. Um deixar-se tomar pela presença de Deus, um entrar na visão de Deus, encostando o coração no coração de Deus, para se deixar abrasar por seu amor.

Em mais uma pérola de sua linguagem simples e essencial a respeito da meditação cristã, John Main nos diz assim: ‘Na meditação, não procuramos pensar em Deus; não procuramos pensar em seu filho Jesus nem pensar no Espírito Santo. Nela tentamos fazer algo de incomensuravelmente maior. Afastando-nos de tudo o que passa, de tudo o que é contingente, procuramos não propriamente pensar em Deus, mas estar em Deus, experimentá-lo como o fundamento do nosso ser. Uma coisa é sabermos que Jesus é a revelação do Pai, que Jesus é o nosso caminho para o Pai, porém outra completamente diferente é experimentarmos a presença de Jesus dentro de nós, experimentarmos o poder real do seu Espírito dentro de nós e, com esta experiência sermos levados à presença de seu Pai e nosso Pai. […] A fim de entramos nesta santa e misteriosa comunhão com a palavra de Deus que habita em nós, precisamos primeiro ter a coragem de nos tornarmos cada vez mais silenciosos. Num silêncio profundo e criativo, encontramos Deus de maneira que transcende todas as nossas potencias do intelecto e da linguagem’.

Trata-se assim de um caminho de oração que integra a pessoa humana em todas as suas dimensões e a leva a descobrir tanto o que ela é em si mesma como a razão de sua existência, na medida em que proporciona o encontro com o Deus que a habita e que é o fundamento de seu existir. É um caminho de auto-conhecimento e de experiência de Deus, uma trilha que reúne em si estas duas dimensões essenciais da mística cristã e que, por sua vez, gera e alimenta uma outra dimensão fundamental da espiritualidade cristã: o compromisso com o outro, como fruto de uma atitude amorosa e de compaixão que brota espontaneamente do deixar-se embeber pelo Amor de Deus.

É Meditação porque reúne todas as características deste método que, quer no Oriente, quer no Ocidente, quer na tradição cristã, quer nos outros grandes caminhos religiosos da humanidade, quer nos séculos antigos lá nos desertos do Egito, quer nos grupos modernos que se reúnem pelo mundo afora… É Cristã porque nos leva a uma experiência do Deus Trindade revelado em Jesus Cristo, que nos habita porque somos sua imagem e semelhança e porque somos templos do Espírito Santo, em sintonia com a mais genuína teologia da Criação, da Encarnação e da Ressurreição, uma vez que faz agir em nós a Graça de Deus que nos torna pessoas novas no Cristo ressuscitado, até ao dia em que, como S. Paulo, pudermos exclamar do mais profundo de nossa experiência: ‘Já não sou eu que vivo! É Cristo que vive em mim!’.

3.1. Oração numa perspectiva integral e integradora da pessoa

A meditação se configura como um tipo de oração que integra as várias dimensões da pessoa: física, energética, emocional, psíquica, racional, espiritual…

É a pessoa toda que reza, na sua inteireza e totalidade. Por outro lado, é também a pessoa toda que se enriquece com os frutos da oração! É um caminho de saúde física e de equilíbrio da energia, limpa as emoções e purifica os porões de nossa história psíquica pela experiência de ser amado, acalma o racional e o concentra num objetivo único, ajuda a pessoa a beber e saciar-se na fonte do Deus-Trindade-Amor…

Sem dúvida, é um jeito de rezar muito significativo para o nosso tempo, que anseia por perspectivas mais holísticas na compreensão do ser humano. Nossa tradição cristã ocidental, embalada pela influência da filosofia grega, ensinou-nos a rezar com a cabeça. De vez em quando, ao longo da história da espiritualidade, alguém nos lembrava que o coração também reza. O corpo, esse, quase sempre ficou de fora como o bastardo que só vem para atrapalhar as coisas. Karl Ranner diria que nós cristãos aproveitamos muito pouco as potencialidades do inconsciente, pois nossa oração fica apenas no nível lógico-reflexivo. Não mergulhamos em águas mais profundas… e acabamos vivendo na superfície das coisas, onde as transformações nunca acontecem. Os místicos ousaram romper estas barreiras que se foram estruturando… mas o povo sempre acabou ficando isolado das riquezas que a tradição cristã foi guardando ao longo da história. E assim fomos nos contentando com formas de oração estereotipadas, vazias e superficiais, caricaturas de oração, imitações em saldo das grandes experiências místicas. Cada época da espiritualidade valorizou uma ou outra dimensão da pessoa, mas quase sempre alguma parte da pessoa ficava de fora. Talvez hoje, presenciemos a volta do desprezo pelo humano, caindo na tentação de uma oração alienada da realidade pessoal e da vida concreta que levamos, para ceder aos embalos de uma oração extra-terrestre que se perde em louvores a Deus mas esquece o homem, este mesmo homem que Santo Irineu dizia ser a razão da glória de Deus, quando vivendo em plenitude! Ou então, a oração cai na supervalorização dos sentimentos e condiciona a manifestação de Deus a emoções de impacto ou a fenômenos fora do comum. Ou então, ficamos na oração fria e mecânica, burocrática e impessoal, de fórmulas feitas distantes da vida… uma oração que cada vez diz menos às pessoas do nosso tempo. E, enquanto isso, nunca tanto como hoje, muitas pessoas buscam formas de oração mais profunda… e talvez tenham dificuldade de encontrar na Igreja quem lhes aponte caminhos para chegar nas fontes!

‘A beleza da visão cristã da vida é sua visão de unidade. Ela percebe que toda a humanidade foi unificada pelo Único que está em união com o Pai.Tudo o que existe, toda a criação se insere no movimento cósmico rumo à unidade, que constituirá a realização da harmonia divina. Ao realizarmos a união, nós nos transformamos no que fomos chamados a ser. Somente na união conhecemos plenamente o que somos’.

A meditação Cristã proporciona esta integração, pois é a pessoa toda que reza, ou melhor, a pessoa é levada a se concentrar no mais profundo de si mesma, indo além de si mesma, para se encontrar inteira n’Aquele que é seu tudo, onde ela é de verdade e se descobre muito mais do que ela!

3.2. Uma Oração que leva ao compromisso

Seria esta forma de rezar uma fuga do mundo, um desligar-se da vida e da realidade?
Os grandes testemunhos que a história nos legou acerca das pessoas que meditaram, nos diz precisamente o contrário: basta que lembremos Ghandi ou os grandes místicos da nossa tradição cristã… quem mais do que eles se sentiu profundamente em comunhão com o mundo?

‘Algumas pessoas acham que a meditação é uma tentativa egoísta e narcisista de fugir das responsabilidades e da vida real. Nada está mais longe da verdade. O objetivo da meditação é aumentar a nossa felicidade, desenvolvendo a capacidade de fugir para a vida, não de fugir dela. Com a mente mais aguçada e concentrada, a qualidade da sua vida melhora, sua experiência de vida fica mais rica e você, naturalmente, fica mais feliz’. Na meditação não desligamos! Antes ficamos mais despertos, mais atentos, mais presentes… a nós mesmos e ao mundo que nos rodeia. Se paramos e nos afastamos para o ‘silêncio do quarto a portas fechadas’, é para encostarmos nosso coração no coração de Deus, para nos deixarmos abrasar pelo fogo, como o ferro que ficando algum tempo na fogueira, depois é capaz de queimar como o fogo. Assim nós, havendo colocado em Deus nosso olhar, percebemos em nós um novo olhar, ao contemplar com os olhos de Deus a vida que se estende à nossa frente. ‘A meta mais importante da meditação cristã consiste em consentir que a presença misteriosa e silenciosa de Deus em nós se torne, cada vez mais, não somente uma realidade, porém a realidade em nossas vidas; em deixar que ela se transforme na realidade que dá sentido, forma e objetivo a tudo o que fazemos, a tudo o que somos’. Na meditação, nos libertamos do passado e nos despojamos do futuro, concentrando-nos no presente, único real. ‘Temos consciência de nossa integridade e unidade e, enquanto permanecemos neste estado de consciência, sentimos uma crescente percepção de nossa união e até unidade com todas as pessoas, com toda a criação, com nosso Criador’.

Frei Betto, um místico de nosso tempo que meditou nos cárceres da ditadura e que fala de meditação para os operários do ABC, diz assim: ‘O compromisso objetivo de mudar este mundo faz com que abracemos a exigência de mudarmos a nós mesmos, tudo isso com uma clareza típica da espiritualidade cristã: o mistério é sempre Deus’.Inácio de Loyola dizia que devemos saborear a suave doçura das coisas e que devemos ser contemplativos na ação e ativos na contemplação…

A Meditação é um tipo de oração que nos leva necessariamente de encontro à vida… e vamos de encontro a ela de modo novo, com um novo olhar e um novo ânimo, movidos pela luz amorosa que nos vem do encontro profundo com o Deus-Trindade-Amor-Dinâmico e gerador de vida!

É uma oração encarnada, que assume a pessoa inteira e que leva a pessoa, mais inteira do que nunca, de volta à vida! Isto não aliena… nem leva à falta de compromisso com o outro, com o social… antes pelo contrário, alimenta profundamente uma atitude de compaixão para com tudo o que vive! A verdadeira paz interior leva ao amor e à justiça! Se a paz interior é o fruto subjetivo da experiência de Deus, a prática do amor e da justiça são os sinais objetivos da verdadeira espiritualidade cristã. Mais importante que praticar a justiça, é ser justo!

A meditação é o trabalho para alcançar quietude… e a quietude é o carimbo do Espírito! Onde habita o Espírito de Deus, o amor e a justiça brotam e geram vida!

Mariano Ballester, diz que ‘os verdadeiros líderes sociais, capazes de permanecer realmente humanos e livres no meio da atividade pública, são homens de oração, quer o digam com esse ou com outro nome. Um povo que se liberta precisa de vida interior, de personalização radical. A sua personalidade precisa desabrochar num diálogo interior permanente. Não há oposição entre pobreza e personalidade: o que faz a personalidade é uma oração personalizada.’

4. O processo

Embora seja uma forma de oração extremamente simples, a Meditação pressupõe um aprendizado em sua prática. Nesse aprendizado, a prática é o melhor professor e cada pessoa é o melhor mestre em sua experiência.

No entanto, algumas considerações poderão orientar a prática da Meditação Cristã, para quem está começando a trilhar esse caminho.

4.1. O Lugar:

Este tipo de oração, pressupõe um ambiente que favoreça o recolhimento e que facilite o silêncio interior, este sim fundamental, mas também certamente influenciável pelo silêncio exterior. Quando Jesus aconselha a entrar no quarto e fechar a porta para rezar, aí certamente podemos perceber este convite à interiorização e este recolhimento que é condição.

Por isso, seria aconselhável que o lugar da meditação fosse um lugar escolhido com cuidado e que esse lugar fosse consagrado para isso, de preferência, apenas para isso. Um espaço agradável, confortável e acolhedor, silencioso e ventilado, preservado de distrações ou de interrupções inoportunas.

4.2. A Posição:

A melhor posição para meditar… é aquela que ajudar você a permanecer o mais imóvel possível e ao mesmo tempo o mais desperto possível, durante todo o tempo da meditação! Seja sempre esta a regra número um! A quietude do corpo é o primeiro passo para que o coração e a mente se aquietem e por isso a posição tem muita influência. Uma segunda pista, fundamental, é manter a coluna reta. Essa postura ereta facilita a respiração e o fluxo de energia no corpo e isso é primordial para todo o processo de tranquilização do corpo e das emoções. Por isso, você pode rezar sentado, de joelhos, em pé e, sobretudo, na posição de lótus, isto é, com as pernas cruzadas e os dedos abertos.

4.3. O Tempo:

Aconselha-se, tradicionalmente, que a pessoa medite duas vezes ao dia, durante pelo menos vinte minutos. O ideal parece apontar para os trinta minutos em cada período. No início, cinco minutos podem parecer uma infinidade e dez minutos um ato sobre-humano. Com a prática, trinta minutos é um tempo que a pessoa nem sente passar. Sabemos muito bem como o tempo é relativo e tanto depende do amor que colocamos e experimentamos naquilo que vivemos.

Será útil, antes de começar a meditar, determinar o tempo que você vai permanecer em oração e ser fiel ao combinado! Assim como convém que a meditação aconteça todos os dias no mesmo horário. Isso vai ajudando a criar ritmo e em poucos dias o hábito adquirido será uma ajuda subsidiária para melhor vivermos nosso ritmo pessoal de meditação diária.

Quanto ao horário, vale novamente a experiência e o ritmo de vida de cada pessoa. Uma boa sugestão seria meditar pela manhã e no final da tarde, ou à noite antes de dormir. Meditar pela manhã ajuda a pessoa a centrar-se logo no início de seu dia e a presença de Deus aí experimentada será uma companhia durante as atividades que vêm pela frente. Ao longo do dia vamos percebendo e saboreando os frutos desse momento de comunhão com Deus. Meditar no final da tarde ajuda a fazer uma pausa em Deus, depois das tarefas do dia, como quem se aconchega no coração de Deus para refazer as energias desgastadas. Meditar antes de dormir teria também esse mesmo efeito e ajudaria certamente a ter um repouso mais tranqüilo através de um somo mais profundo pois, como já nos lembrava João Cassiano, é bom que o sono nos encontre repetindo nosso mantra.

4.4. Aquietar-se:

A preparação para a Meditação, que se propõe como um caminho para o centro, implica uma unificação da pessoa. Muitas vezes nos percebemos dispersos, como pessoas quebradas em nossa harmonia pessoal. A meditação pode ser entendida como um caminho de unificação do ser, de centralização na nossa essência, aí onde Deus está sempre presente, mas nem sempre é percebido, porque outras coisas nos impedem de experimentar sua presença. Quando a pessoa serenar internamente, aí se encontrará definitivamente consigo mesma e ao enxergar seu rosto, nele perceberá os traços claros do rosto de Deus-Trindade, como presença amorosa, incondicional e permanente, como alguém que sempre esteve, mas nem sempre foi experimentado no fundo do poço, como manancial de vida.

A preparação passa pelas várias dimensões da pessoa: precisa começar pela tranquilização do corpo, para depois chegar a serenar as emoções e enfim conseguir apaziguar a mente. Assim harmonizadas as três dimensões, física-emocional-racional, sendo elas intrinsecamente interdependentes e interinfluenciáveis, as três assim enfeixadas fazem com que a pessoa se encontre inteira diante de si, no mais profundo de si mesma, centrada em sua essência… e aí Deus habita e se deixa encontrar!

4.4.1. Aquietar o nível físico: o primeiro passo é o relaxamento físico. O relaxamento muscular é o pré-requisito necessário para a meditação profunda. Muitos ignoram, a esse respeito, a grande tradição cristã. Mestres de oração, como Santa Teresa de Ávila, Santo Inácio, São Francisco de Sales e, de modo especial, os grandes Padres da Igreja Oriental, sempre acentuaram a necessidade de que o corpo deve colocar-se em perfeita sintonia com o espírito de quem reza profundamente, a fim de que a mente não seja perturbada por nenhuma tensão material.

O relaxamento físico se faz, de modo simples e prático, ficando numa posição imóvel, prestando atenção e sentindo o corpo, parte por parte, à medida que se vai respirando lenta, longa e profundamente. Existe também o relaxamento dinâmico, que consiste em fazer movimento, prestando atenção e sentindo cada parte do corpo. As técnicas orientais como Yoga, Sotai, Shibashi, Tai-Chi… são ajudas valiosas nesta tarefa de relaxar o corpo, aliando já a este relaxamento muscular a harmonização das emoções, na medida em que trabalham sempre a arte da respiração.

4.4.2. Aquietar o nível emocional: A respiração tem uma ligação íntima com as emoções. Nossas emoções são a materialização do fluxo de energia em nós e este depende diretamente do ritmo e da profundidade da respiração. Quando temos emoções fortes, nosso ritmo respiratório se altera e o contrário também é verdade: o modo como respiramos influencia também nosso estado emocional. A respiração é elemento fundamental em todo o processo da meditação profunda. Quase ninguém respira adequadamente na vida diária e por isso os especialistas na matéria chegam a dizer que o homem comum usa apenas um terço e até um quarto de sua capacidade pulmonar total; assim a oxigenação é deficiente e, por fim, a saúde total do indivíduo se ressente. Daí a necessidade de praticar uma respiração lenta, longa e profunda, aquilo que poderíamos chamar de ‘respiração natural’. A influência da respiração sobre a meditação é tripla. No nível biológico, ela renova o oxigênio e nos libera de impurezas de todo o tipo. No plano psíquico, conduz o nível emocional à descontração. No plano simbólico, nos traz uma riqueza que o Senhor bem conhecia quando soprou sobre os discípulos lhes disse: Recebei o Espírito Santo (Jo. 20,22)’.

Uma vez que praticamente todos os sentimentos se refletem na respiração, temos duas tarefas importantes ao nosso alcance, bem na frente de nosso nariz: re-aprender a respirar – praticando uma respiração lenta, longa e profunda, e servir-se dela para acalmar os diferentes níveis do nosso ser, especialmente o emocional.

Pela respiração consciente, vamos criando uma atitude que nos permite ser expectadores de nossas emoções, sem nos deixarmos envolver e levar por elas. É como estar parado na margem de um rio, ver uma folha sendo carregada pela correnteza da água e acompanhá-la no seu curso, até sumir de vista. Não se trata de pensar sobre as emoções, mas apenas observá-las, tomar consciência delas e deixar que elas se esvaiam lentamente e naturalmente.

4.4.3. Aquietar o nível racional: Nossa mente vive fazendo o que sabe fazer: pensar! Se pararmos e prestarmos atenção durante alguns instantes, ficaremos surpresos com a quantidade de pensamentos que nos assaltam, numa agitação contínua, como um bando de macacos pulando de galho em galho. Essa atividade frenética de nossa mente, além do enorme desgaste de energia que provoca, impede que nossa atenção esteja presente em cada momento concreto que estamos vivendo. Ela vive presa ao passado ou vagueando pelo futuro. Aquietar-se ao nível racional-espiritual significa criar silêncio interior. Este silêncio se consegue concentrando a atenção no presente e assim libertando-a do passado e do futuro, que são profundamente estressantes. Quando conseguimos centrar nossa atenção no presente, experimentamos um nível bom de tranqüilidade. O caminho para pacificar a mente é o Mantra! Pela repetição do mantra, a mente se concentra no presente, se concentra em si mesma e consegue afastar toda a sorte de pensamentos sobre o passado ou sobre o futuro.

Quase todas as escolas de meditação usam o mantra. ‘Man’ significa ‘mente’ e ‘tra’ quer dizer ‘instrumento’. Poderíamos então traduzir o termo mantra por instrumento da mente ou ferramenta da mente.

Repetindo o mantra, a mente vai serenando progressivamente. O mantra funciona como ponto de referência ao qual sempre voltamos quando nos percebemos dispersos ou envoltos pelas distrações. Ele não evita as distrações mas nos ajuda a voltar a atenção para o momento presente, todas as vezes que dele a mente for desviada.

Síntese:

A melhor descrição do processo de meditação me parece ser, pela sua clareza, simplicidade e sobriedade beneditinas, a que John Main nos deixou: ‘para meditar bem, você precisa adotar uma postura sentada confortável; deve ser confortável e relaxada, porém não indolente. As costas devem conservar-se eretas, tanto quanto possível com a coluna numa posição reta. Os que dispõem de certo grau de flexibilidade e de agilidade podem sentar-se no chão, de pernas cruzadas. Se você se sentar numa cadeira, verifique primeiro se ela tem encosto reto e braços confortáveis. Sua respiração deve ser calma e regular. Procure relaxar todos os músculos do seu corpo. As disposições interiores de que você necessita são: a mente em calma e um estado de espírito tranqüilo, em paz, e é nisto que reside o desafio da meditação. A tarefa real da meditação consiste em alcançar a harmonia de corpo, mente e espírito’.

Poderíamos então resumir o processo da meditação recolhendo os seguintes elementos: 1- determinar um horário e decidir durante quanto tempo vamos meditar; 2- escolher um lugar; 3- encontrar uma posição favorável; 4- aquietar o corpo através do relaxamento; 5- aquietar as emoções através da respiração; 6- repetir o mantra continuamente, escutando-o… e sempre voltar a ele quando nos percebermos distraídos.

Meditar consiste em repetir o mantra! Esse é o processo! Apenas isso! Aí se concentra a simplicidade da meditação e aí reside toda a sua dificuldade!

Cheirar a Deus

Um jovem perguntou ao mestre: – O que é rezar? E o mestre respondeu: – Rezar é experimentar Deus!

Ficou do mesmo jeito, na cabeça do jovem… e aí ele perguntou: – E o que é experimentar Deus? E o mestre explicou: – Experimentar Deus é cheirar a Deus!

Piorou! O nó se apertou na cabeça do jovem… e ele ousou ainda perguntar: – Mas… o que é cheirar a Deus?

E foi então que o mestre contou uma parábola:

Um dia, Deus se aproximou de uma pessoa e deu para ela um pequeno vidro, contendo a sua divindade, a sua Graça. A pessoa ficou encantada! Naquele vidro, em suas mãos, ela tinha a divindade, a Graça de Deus, o próprio Deus! Ela quase não podia acreditar… e suas mãos quase não conseguiam tocar aquela preciosidade! Correu para casa, arrumou um fio de ouro, pendurou nele o vidro sagrado e o colocou religiosamente no pescoço, como um adorno poderoso que poderia ostentar por onde andasse..

Aconteceu depois que Deus ofereceu outro vidro igual a uma outra pessoa. Também ela ficou extasiada e seu coração não podia conter a sensação profunda de estar tocando a essência de Deus em suas mãos! Correu para casa e preparou um altar de rara beleza, ornou-o de pedras preciosas e quadros valiosos, acendeu velas e incenso, para que aquele vidro que continha o próprio Deus pudesse ser adorado.

O mesmo vidro foi oferecido por Deus a outra pessoa. O fascínio foi tão grande, que esta terceira pessoa não aguentou de curiosidade e a sua ansiedade a fez correr para o laboratório e aí ficou analisando aquele vidro, refletindo, tirando conclusões e elaborando discursos a respeito da natureza do vidro que continha o próprio Deus.

Uma quarta pessoa foi presenteada por Deus com um vidro igual. Também esta pessoa ficou seduzida e fascinada pelo mistério que estava tocando… mas logo, logo, esta quarta pessoa abriu o vidro, derramou-o na sua cabeça, respirou fundo sentindo o perfume que se derramava sobre ela… e saiu por aí, espalhando aquele perfume por onde passava.

 

Cheirar Deus e cheirar a Deus. Respirar o mistério de Deus, saborear sua presença… e sair por aí espalhando o cheiro de Deus, na vida das pessoas e no mundo.

É isso a oração: cheirar Deus! E é para isso a oração: para que, inebriados pelo cheiro de Deus que sua presença experimentada em nós derramou, possamos andar por aí cheirando a Deus! Quem reza, cheira Deus e cheira a Deus!

Quem faz de Deus um ‘objeto’ de ostentação pessoal, quem O coloca no altar distante de uma adoração estereotipada ou quem se satisfaz com análises e discursos intelectuais acerca de sua natureza… não cheira Deus e nunca poderá cheirar a Deus! Pode carregar muitos sinais externos de Deus, pode falar muito com Deus e poderá falar muitas coisas a respeito de Deus… mas não cheira Deus nem cheira a Deus!

A sede de infinito que nos perpassa, clama por Deus e não se contenta em saber sobre Deus pois, como já dizia Santo Inácio de Loyola, ‘não é o muito saber que sacia’.

Buscamos a experiência de Deus não apenas para nos deliciarmos bebendo seu perfume, mas para que depois possamos espalhar seu perfume pelo mundo aonde vamos. Não cheiramos Deus para ficar com seu perfume. Cheiramos Deus para cheirar a Deus! Mas sabemos que nunca poderemos cheirar a Deus, se não cheirarmos Deus!

Aí nasce a necessidade da oração profunda, como espaço de encontro com Deus na intimidade de nosso ser, ao nível de nossa essência que se encontra e se funde na essência de Deus que encontramos, pois Ele nos habita. Fomos criados à sua imagem e semelhança; temos em o sopro de vida que sobre nosso ser ele insuflou para que nos tornássemos seres viventes; seu amor que nos criou, nos habita e nos sustenta e nos mantém vivos numa relação de cuidado; somos templos do Espírito de Deus… e por isso podemos encontrá-Lo e com Ele entrar em comunhão profunda, em união com o Ser que nos faz ser! Perceber presente o Deus que está sempre presente em nós… alimentar-se dessa presença amorosa, encostar nosso coração no coração de Deus, deixar que ele seja tomado pelo Amor, embebedar-se do perfume de Deus… para depois sair por aí cheirando a Deus e comtemplando-O também presente na vida, nos acontecimentos, na realidade, nas lutas do povo e nos clamores da gente, no trabalho e na arte, no lazer e na cultura, no compromisso, nas alegrias e nos sofrimentos, no outro e nos outros, no mapa por onde nossos pés fazem história…

Cheirar Deus, profundamente! Deixar que o Amor tome conta da vida por inteiro…para cheirar a Deus, para que os outros e a criação inteira possam também respirar, no ar que deixamos por onde andamos, o cheiro de Vida e, seduzidos por esse perfume, também eles busquem a fonte onde o Amor é e de onde o perfume nos vem!

Domingos Cunha, CSh.


ENCONTRO DO GRUPO VEM - VIVÊNCIA E ESTUDO DE MEDITAÇÃO. LAGAMAR DO CAUÍPE. 4 A 6 DE OUTUBRO. UM FINAL DE SEMANA PARA MEDITAR DESDE O NASCER AO POR DO SOL. UM ENCONTRO PROFUNDO COM DEUS QUE NOS HABITA, NUM PARAÍSO ECOLÓGICO.



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