ALGUÉM ME SONHOU ASSIM...

 

E se um dia perguntarem quem é você... responda: eu esqueci, mas estou procurando lembrar.

E se alguém perguntar de onde você vem e para onde vai... fale apenas: eu sou movimento, venho do Uno, sou aquele que busca recordar-se de si mesmo, sou sonho de Deus, sou Sopro, sou livre como o vento.

 

Alguém nos sonhou assim...

Aquele menino chegou feliz no café d manhã e contou que havia tido um sonho lindo. Ele mal sabia ainda falar, mas queria contar o seu sonho. E começou empolgado, mas as palavras faltaram e ele esqueceu o sonho no meio da contração. E aí, aflito, pediu ao irmão que continuasse a contar o sonho. O irmão respondeu: eu não sei, o sonho não é meu! E o menino, empolgado, disse: -sabe sim, porque vc estava no meu sonho!

Estamos no sonho de Deus. Fazemos parte do sonho de Deus... e por isso podemos contar esse sonho!

Éramos Seres... e nos tornamos Humanos e agora começamos a perceber que somos Divinos. Pensavas que eras pó e gora começas a perceber que és Sopro - dizia Rumi.

E o profeta Jeremias falava: antes que te formasses no ventre de tua mãe, eu te conheci e te consagrei. Eu te conheci pelo nome, te quis e te sonhei. E te consagrei, porque te dei uma missão. Fazes parte do sonho de Deus, tens um trabalho nesse Projeto Divino, vieste a serviço e não a passeio... e por isso, na escola da vida não podes chegar apenas na hora da merenda.

 

Somos aquilo que demos conta de ser, quando esquecemos quem somos.

A Personalidade é a loucura que inventamos para sobreviver - diz Cláudio Naranjo. É uma loucura, sem duvida, mas foi necessária para sobrevivermos.  É um dia precisaremos ajoelhar perante a nossa Personalidade e render homenagem de gratidão por serviços prestados. A Personalidade nos ajudou a dar conta daquilo que somos, neste mundo onde viemos em missão... e nos ensinou habilidades, para darmos conta de expressar a Essência. A missão vem da Essência, mas a Personalidade nos permite expressá-la.

Mas se alguém perguntar quem é você... não esqueça de dizer: - sou Essência e tenho uma Personalidade!

Não pergunte à sua infância por que você tem essa Personalidade nem terceirize para seus pais a instabilidade por ela é você que é pai ou mãe, não carregue culpa ou orgulho pela Personalidade de seu filho.

Tudo te foi dado e tudo é benção. A Personalidade também... como predisposição inclusa no presente divino da divina Essência.

Como o airbag que o carro já traz de fábrica e o acidente não cria, mas apenas faz aparecer... ou como o copo que protege a vela para que a chama não se apague... ou como semente que já está  na terra, esperando as condições para germinar. Ou como uma capa de plástico que nos deram na mochila de viagem para  o proteger os da chuva na jornada... mas que depois virou nossa pele e a vida depois engrossou o couro e a fez armadura que esconde mais do que protege. E os nossos pais e as coisas da nossa infância foram apenas partes colaborando num plano maior, para que a Personalidade emergisse, maior ou menor... e a aguaram e adubaram, talvez. Somos como nossos pais e eles eram. Ribanças também, como nós, feridas e carentes, que feriram como fere  e faz barulho a fera que se machucou, no dizer de Oswaldo Montenegro.

 No sonho desse alguém que por Amor nos inventou, já estava lá, como predisposição, a nossa Personalidade.  Ela não é aleatória nem foi por acaso da sorte ou do azar da nossa infância que se formou assim. Ela é apenas o recurso adequado para termos conseguido sobreviver, a proteção certa e apropriada para servir de escudo à nossa Essência.

E assim, um dia finalmente, deixaremos de perguntar por que somos assim... e começaremos a investigar para que alguém nos quis assim.

Um dia entenderemos enfim que tudo o que somos, Essência e Personalidade, faz parte da Missão de Vida que esse Alguém nos deu, por Amor e para o Amor. E a isso de perceber tudo isso, daremos o nome de Consciência. Porque a Essência nos foi dada gratuitamente e a Personalidade que já lá estava como semente, foi desenvolvida no início da nossa jornada, de modo inconsciente. Mas a Consciência, essa há de ser construída por nós, sem chance alguma de terceirização... e disso depende em absoluto o Sentido da Vida.

Torna-te aquilo que és, dizia Bernardo de Claraval. Não inventes para ti outra missão além daquela que esse Alguém te deu e nem aceites outras missões fajutas que o mundo queira te dar e nem concordes se alguém quiser te contratar para servir o projeto dele.  Eu vim ao mundo para ser feliz... e o meu pai me fez acreditar que eu vim ao mundo para trabalhar  - dizia, triste, aquela pessoa Tipo Um, lá no Espírito Santo, ao caminhar para o Ponto Sete no símbolo do Eneagrama. E outro amigo, agora do Rio de Janeiro, dizia saber com fazer Deus bolar de rir: bastaria chegar para Ele e contar todos os seus mil e um projetos. Deus iria rir de gargalhada desse pobre coitado... contando orgulhoso os projetos que inventou, em vez de perguntar apenas qual o Plano que Deus havia sonhado para ele.

Somos muito mais humanos do que pensávamos - dizia aquele Assistente do Sebrae e disse também um Juiz de Direito no Tocantins. Somos muito mais divinos do que ousaríamos sonhar ou pedir ou daríamos conta de ser por conta própria. Somos parte querida de um imenso Amor. Essência e Personalidade, fazem parte do que somos, a serviço da Missão a que viemos.

Estamos uma oitava acima, quando acordamos e assim enxergamos. Saímos do ciclo do eterno retorno a que a Personalidade sozinha nos sujeita e, deixando-os levar aos horizontes da  Espiritualidade, entramos no campo sagrado da Essência pois, como dizia Rumi,  para além do certo e do errado, existe um campo sagrado.

Espiritualidade sem Autoconhecimento, pode gerar alienação e Autoconhecimento sem Espiritualidade pode levar ao desespero - como lembrava o filósofo Pascal. Porque se andarmos por aí como cachorro à volta de si mesmo tentando pegar a própria cauda,  única iremos além das feridas e neuroses da nossa Personalidade. Mas somos muito mais que nossos traumas e sombras e é a partir da luz que somos que poderemos iluminar as trevas que nos habitam. É na recordação de nós mesmos, lembrando da natureza da nossa natureza, que encontraremos a verdade de quem somos e enfim saberemos e saborearemos que somos muito mais que aquela máscara que durante tanto tempo acreditávamos ser.

A rigidez é boa na pedra mas não no ser humano - assim falava Gurdjieef. Porque a Essência não cabe na armadura da Personalidade.  E Carpinejar nos lembra que ninguém é o que parece, nem para si mesmo.

Porque... como resumia Saramago, dentro de nós há uma coisa que não tem nome. Essa coisa é o que somos!

 

Pe. Domingos  Cunha, CSh.

 

 

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